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Graham Gussin: Studio Monte Palace

Apesar de Graham Gussin residir e trabalhar em Londres, ao longo dos últimos 25 anos o artista apresentou várias exposições em Portugal, frequentemente em virtude da sua ligação com o curador Miguel von Hafe Perez e o artista Miguel Palma. Foi este último que estabeleceu a ligação com o Hotel Pico do Refúgio, onde Gussin beneficiou de uma residência artística em abril de 2017. Ironicamente, quando Gussin não estava naquele hotel, estava noutro, o Hotel Monte Palace, um edifício abandonado que se tornou literal e conceptualmente no local de todo o trabalho que o artista realizou nos Açores e que agora se apresenta na Galeria Fonseca Macedo.

Existe uma breve história de hotéis modernos abandonados aproveitados por artistas como objeto da sua obra. Duas peças têm particular relevância para Gussin. A primeira é Hotel Palenque, realizada por Robert Smithson em 1969/72, originalmente como um conjunto de slides para apresentação aos seus alunos. Uma década mais tarde, Wim Wenders utilizaria a piscina abandonada do Hotel Arribas Sintra, na Praia Grande, como cenário do seu filme futurista pós-apocalíptico Der Stand der Dinge (O Estado das Coisas). Estas duas obras contêm muitos dos tropos favoritos de Gussin: ruínas modernas, tecnologias obsoletas, narrativas escapistas, referências indiretas a outros artistas e filmes famosos. Na sua obra Lens [Lente], de 2012, Gussin regressou ao local das filmagens de Wenders para tirar fotografias a sépia igualmente anacrónicas. Nas obras que realizou no Monte Palace (que fechou as portas em 1989), Gussin regressa mais explicitamente a Smithson.

Existe, porém, uma diferença fundamental entre Hotel Palenque e o trabalho desenvolvido no Hotel Monte Palace. A banda sonora de Smithson torna os seus slides em algo que não são: informados, astutos, enganosos. Gussin, por outro lado, não procura descrever o Monte Palace por palavras, mas utiliza-o em boa fé, principalmente enquanto espaço físico. Enquanto os slides de Smithson correspondem aos de um observador lacónico, a presença de Gussin encontra-se incorporada no interior das suas imagens. O artista habita o edifício com a sua obra, explorando também como outros o habitam quando ele se encontra ausente.

Habitar um espaço e descobrir novas formas de documentar esse ato de habitar tem sido um leitmotiv recorrente na obra de Gussin. Qual cientista, concebe uma experiência incluindo a sua prova material. No Monte Palace, Gussin dispunha de um espaço maior que o habitual, o que lhe permitiu encontrar mais maneiras de o habitar: desde simples fotografias e desenhos, a complexos filmes de imagem e som (fogo-de-artifício, bolas saltitantes) e bordados encomendados localmente representando graffiti presentes no local. O edifício despojado funciona, assim, como terreno de ensaio para diversos tipos de intervenção material e sonora.

Apesar de Gussin ter manifestado um fascínio pelo hotel moderno, o alvo da sua atenção não é o hotel propriamente dito. Esta ruína de betão de tamanho considerável tem mais coisas em comum com uma instalação militar que com um local de alojamento e conforto. Como tal, corresponde ao interesse mais amplo de Gussin pelos temas da visão e da vigilância e do limiar entre o obsoleto e o futurista. O título dado ao conjunto de obras – Studio Monte Palace – transporta consigo este duplo sentido de um local de trabalho e um local de estadia, situando-o também como um lugar elevado, uma posição estratégica, um lugar de comando. Saindo do círculo de referência familiar de Gussin, poderíamos igualmente lembrar-nos de outros ambientes de fronteira literários. Exemplo disso são as empolgantes descrições de fortalezas isoladas onde homens enlouquecem enquanto esperam o inimigo invisível, tais como aquelas de Joseph Roth, Dino Buzzati e J.M.Coetzee. A ambiguidade do título ecoa a ambiguidade da própria residência artística: um novo tipo de retiro que é, simultaneamente, um tempo de indulgência e de negação, de introspeção e de desafio.




Penelope Curtis

Julho de 2018




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FONSECA MACEDO - ARTE CONTEMPORÂNEA | 2017