O Narcisismo das Pequenas Diferenças ◄ Voltar

“O Narcisismo das Pequenas Diferenças”


A exposição “O Narcisismo das Pequenas Diferenças”, de Pauliana Valente Pimentel, apresenta um conjunto de fotografias de ambientes, situações e pessoas que enquadram diferentes realidades da Ilha de São Miguel.

Realizadas em 2017, no âmbito de uma residência artística, estas imagens são agora apresentadas numa parceria que inclui a Galeria Fonseca Macedo, o Festival Walk & Talk e o Festival Tremor. Estes registos integram uma nova série, que se centra num grupo de jovens micaelenses e nas relações que estes mantêm com os locais, e com os costumes da ilha.

Na sequência dos seus anteriores trabalhos, como "Jovens de Atenas"(2012), "The Passenger"(2014), "The Behaviour of Being" (2105), ou "Quel Pedra"(2016), a artista visa entender o modo como se expressam as particularidades de um dado local, a maneira como isso influi na organização da sociedade e a reacção que isso gera na sua população mais nova. Assim, da especificidade da condição insular, à expressividade da relação natureza-cultura, nas suas múltiplas variações sócio-culturais, Pauliana Valente Pimentel está atenta à definição de um registo identitário, à maneira como ele se manifesta e à forma como ele se questiona.

Focada nas manifestações de genuinidade e transgressão, a artista procura perceber a dinâmica das pessoas que fotografa, o meio a que elas se reportam, e a abertura, ou liberdade, que estas assumem e manifestam.

A sua permanência em São Miguel, que foi alargada, permitiu-lhe estreitar relações com a ilha e com as suas comunidades. A visão que partilha, potenciada por um amplo tempo de convivência, assenta numa base de proximidade, confiança e abertura. De modo cuidado, e inteligente, a artista evita o registo documental, que classifica e estereotipa. Na verdade, o seu olhar é curioso, mas revela sem ser intrusivo e inquire sem estar a julgar.

De forma intensa, é-nos dada uma perspectiva sobre um quotidiano que, ao mesmo tempo, é estranho e natural. É estranho, porque existe um desencontro entre a idade, ou a natureza das pessoas retratadas, e a expressão de uma cultura onde a tradição tem um peso dominante. Natural, porque no seio desses ambientes, a artista captou a força e a espontaneidade de cada indivíduo, e de cada situação.

O título da exposição reporta-se aos escritos de Sigmund Freud, onde se aborda a ideia das pequenas diferenças como base dos sentimentos de estranheza e hostilidade que surgem entre os povos. Mas, a visão de Pauliana Valente Pimentel acolhe a diferença e evita o confronto. Na verdade, a sua atenção recai na procura da beleza que reside no inusitado de cada situação.

Como uma ilha, cada pessoa está predominantemente alheado no seu mundo, voltado sobre as suas próprias diferenças. E, das memórias infantis, à projecção de outros imaginários, a especificidade que cada imagem fixa é pautada pela delicadeza e pela fragilidade que cada indivíduo apresenta.

Quem surge nestas imagens insinua algo que gravita entre a aceitação e o desconforto. Algo que advém da distância entre a contenção cultural e a transgressão da idade. A forma como isso nos é dado a ver assenta, porém, numa simplicidade desarmante. Uma simplicidade que reflecte um lado autêntico, onde se exclui a decadência e o afastamento, e se celebra a força e o encanto.



Sérgio Fazenda Rodrigues


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FONSECA MACEDO - ARTE CONTEMPORÂNEA | 2017