A ilha de Sam Nunca
ANDREA SANTOLAYA
Andrea Santolaya, névoa do mais além
«Montes de fogo, vento e solidão. Assim descrevia os Açores, no século XVI, um dos primeiros viajantes portugueses que ali desembarcou», escreveu o italiano Antonio Tabucchi, que, no fim do século XX se tornou primeiro português e depois açoriano. A minha impressão é que aquele fogo, vento e solidão continuam imutáveis nas ilhas e que as coisas não mudaram muito. Não é um lugar onde as pessoas apaguem os rastos. É como se existisse um pacto entre os Açores e o imutável, e um outro com o conceito de distância.
Os Açores, no meio do oceano, longe de tudo. Da Europa e da América. Talvez seja a distância o fascínio dos Açores. Mas essa distância não existe para os ilhéus, que a deixam para os visitantes, nada que seja estranho, porque os açorianos estão sobretudo próximos de si próprios. Mas próximos a quê de si próprios? Ao não os pensar, durante anos, nada próximos das tradições e da história, surpreendi-me ao entrar em contacto com Andrea Santolaya – a neta fotógrafa de Eugenia Niño da famosa Galería SEN, de Madrid – e ver a sua fascinante e sonâmbula obra artística açoriana. O que há nesse conjunto de fotografias inquietantes, embora de águas tranquilas? Há uma exposição que, baseando-se em poemas de Natália Correia, tem como título A Ilha de Sam Nunca e fala da idiossincrasia deste lugar, tão remoto para os de fora e tão natural para os de dentro, onde comunidades se desdobram através de um conjunto de ritos e rituais em pleno oceano Atlântico.
Como dizer? Andrea Santolaya fotografou a eternidade da névoa. Deixei, assim, de crer que os ilhéus se sentiam próximos apenas do solo, da sua terra verde e azul e que eram muito próximos do seu, que era algo imediato, sem passado. Não. Santolaya desmente tudo isso ao criar uma inesquecível cartografia sonâmbula, como Sonho em Forma de Carta, o primeiro texto de Mulher de Porto Pim, de Tabucchi. Aí, como na obra que Andrea Santolaya nos apresenta, existe uma geografia existencial oculta na névoa de um mais além. E existe também um mapa interior que projecta a emoção percorrendo um grupo de ilhas povoadas por pessoas que veneram paixões e adoram deuses como o amor ou o ódio («o deus do ódio é um pequeno cão amarelo de aspecto macilento, e o seu templo levanta-se numa minúscula ilha que tem forma de cone») ou o deus do ressentimento, mas que, como no mapa interior, são reais apenas num sonho em forma de carta.
A surpreendente Andrea Santolaya, a neta fotógrafa, parece dizer-nos que, depois de sulcar as águas durante muitos dias e muitas noites, compreendeu que o Ocidente não tem fim, continuando a deslocar-se connosco, e que podemos persegui-lo à nossa vontade sem nunca o alcançar.
E isto é tudo, visto a partir da distância.
Enrique Vila-Matas
Tradução de Isabel Araújo Branco