A forma das coisas ◄ Voltar

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Uma das acções que primeiro se aprende é a nomear. Nesse jogo da linguagem em que o mundo se organiza, entre gestos, afectos e conceitos, surgem palavras para todos os gostos e sentidos etimológicos. Mas uma das que mais me tem ocupado, nos últimos tempos, é a palavra “coisa”. Porque sendo ela, a coisa, “qualquer objecto inanimado” como dizem ser alguns dicionários, o seu significado compreende, segundo outros, todos os objectos corpóreos e incorpóreos de qualquer natureza, tipo ou espécie. Mais, «coisa» é tudo aquilo que existe ou pode existir. Uma espécie de parte e todo em simultâneo, de potência de tudo. À medida que o tempo avança, às vezes acontece um fenómeno curioso. Seja por excesso de informação, por lapso ou distracção, por doença ou falta de concentração, os nomes viram costas e aí ficamos a braços com a «coisa» de novo, como se regressássemos a um estado primevo, depurado, onde apenas o essencial se manifesta. Por exemplo, uma senhora que conheço, num desses momentos iluminados, à falta de ovo e garfo, pediu aquela «coisa» branca que à volta tem uma «coisa» que se parte e aquela outra «coisa» que tem quatro «coisinhas» levantadas ao ar, para a comer... Lembrei-me disto a propósito de uma das conversas que tive com Victor Almeida sobre os seus mais recentes trabalhos, e ele me referiu a importância de Miguel Ângelo e da Capela Sistina. À memória veio-me de imediato a imagem renascentista desse sopro animador num dedo a nomear, do Criador estendido ao Homem em gestação, a fazê-lo, na suspensão do gesto, a possibilidade de ser «todas as coisas». As suas palavras exactas foram, “Só quando vi um livro sobre o Miguel Ângelo é que encontrei o que andava à procura. Era isto…”. Disse, estendendo as imagens. E o «isto» revelou-se como sendo a densidade material das figuras registadas num período de plena afirmação do indivíduo, a exaltação do Homem feito corpo a deixar à margem o perfil de uma santidade etérea, a presença do desenho escultórico, clássico, a reger toda a composição. O interesse de Victor Almeida pela matéria sempre se manifestou. Desde as pinturas e os desenhos realizados no início de 2000 que traçavam inclusivamente «caligrafias», sinais de uma cartografia texturada sobre o visível. Mas a forma surgia, quando muito, num primeiro momento, como inferência numa trama dominada sobretudo pelo monocromatismo das obras, como resultado da lenta acumulação do pigmento e do gesto que conferiam à pintura uma solidez pétrea cuja dureza apenas era subvertida pela transparência diáfana. Mais tarde, tornou-se mais vincada na sugestão de ritmos ondulantes ou lineares na superfície da tela mas sempre numa uniformização cromática evidente, trabalhada sempre com luz artificial. O que se veio a constituir como experimentação sistemática e aprofundada sobre a forma no discurso plástico de Victor Almeida proveio de uma encomenda para uma obra, perfeitamente enquadrada naquilo que sempre tinham vindo a ser as suas preocupações ao nível da pintura enquanto técnica e linguagem. Tratou-se do desafio lançado pelo Pároco da Igreja de Nossa Senhora da Oliveira, na Fajã de Cima, na ilha de São Miguel, nos Açores, em Agosto de 2003, ao pintor, para colocar no baptistério uma obra contemporânea que, aludindo ao significado do local, gerasse um reconhecimento por parte da comunidade. Sobre um amplo céu azul surge então uma figura: o recorte de uma pomba em voo de asas abertas, trabalhadas em sucessivos planos. As pinturas que agora se apresentam em exposição são, por assim dizer, a prossecução natural desta investigação. Mas o que nelas se vê, não se constringe já a uma identificação imediata. Sobre um fundo monocromático branco, totalmente branco onde se pressentem maceradas muitas outras cores, rasga-se uma forma. Em fuga aos limites da tela, desequilibrando enquadramentos, estruturando simetrias, a forma surge a azul, um azul intenso, cobalto, matizado, a abrir em profundidade o suporte. Ou ao invés, impõe-se como sombra, como ausência emergente de um corpo unificado na planimetria. Existe a remissão para o corpo humano. Ou um corpo fragmentado no soslaio do olhar a funcionar como ponto de partida para outra leitura. Uma «Alegoria do corpo». “Um corpo é o que é. É o que estamos a ver. Mas também é uma forma. Até parece outras coisas” afirma o pintor. Um corpo-coisa inicialmente surgido de uma selecção de fotografias quotidianas e que se redescobriu posteriormente a partir dos frescos de Miguel Ângelo. Um corpo seccionado - como se o tempo e um novo olhar o dissecassem - esvaziado da densidade prospectiva para se tornar linearidade essencial. Não já a exaltação do motivo mas o motivo como motor de uma pintura sedeada no seu fazer.

Ana Ruivo,

Outubro de 2004

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FONSECA MACEDO - ARTE CONTEMPORÂNEA | 2017