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A frota invisível

A outra margem diz-te respeito...

Jean-Luc Raharimanana

 

Segundo a convenção da perspectiva, que tudo centra no olho de quem observa – verdadeiro centro de gravidade de onde todos os elementos partem e para onde tudo conflui –, a reciprocidade visual não existe. Pelo menos, de acordo com o que afirmou John Berger num conhecido ensaio em que assinalava também que a invenção da máquina fotográfica teria transformado os velhos modos de ver. Afinal, havia-se descoberto que “já que não era possível imaginar que tudo convergia no olho humano, ponto de fuga do infinito”, e que “ o visível, num fluir contínuo, se tornava fugaz” [1].

 

Olhar para uma imagem não significa que sejamos capazes de textualizar tudo o que nela vemos. Há sempre um elemento que nos escapa, algo invisível que luta contra a tirania do visível e legível. O risco mais belo da ficção, sustenta Georges Didi-Huberman, consiste precisamente em não tentarmos apoderarmo-nos da imagem, deixando, pelo contrário, que seja a imagem a apoderar-se de nós, a “despojar-nos do seu saber sobre ela”[2].

 

Este pode ser um belo ponto de partida para nos aproximarmos das doces fotografias que constituem o projecto Waterline, de Sandra Rocha, composto por uma série de variações sobre diferentes paisagens marítimas em que o mesmo esquema se repete: uma vista frontal do mar e do céu criteriosamente dividida pela linha do horizonte, que define o eixo compositivo de todas as obras. Aparentemente não há outro enredo. A visão da natureza nua impõe-se numa imagem primordial onde a massa de água em movimento vai adquirindo nuances, no que diz respeito à forma e à cor, pois todos os mares são diferentes. 

 

A superfície vibrante da água parece estar calma e não se avista costa alguma. E, à parte disto, não há indícios de mais nada. Encontramo-nos perante representações perfeitas de paisagem clássica, serena, despojada. Apenas céu e mar clivados por um horizonte onde a autora situa o foco da máquina fotográfica deixando o primeiro plano ligeiramente desfocado. O ponto de vista encontra-se um pouco elevado, como se as fotografias tivessem sido feitas dentro da água. Cada composição, reduzida aos elementos mínimos, roça o abstracto, afastando-nos de qualquer interpretação narrativa. Mas toda a imagem é portadora de memória e a percepção de um lugar, a construção de uma paisagem, é sempre diferente, dependendo das suas circunstâncias específicas. As paisagens marítimas que Sandra Rocha nos dá a ver, marcadas pelo vazio e pela solidão, provocam uma sensação de estranheza e inquietude. Algo excede a linha do horizonte para lá do que a artista dá a ver para que possamos interrogar-nos sobre o que não se vê.

 

Vamos então um pouco mais longe. As fotografias foram realizadas entre fevereiro de 2012 e agosto de 2013 em doze lugares específicos. Concretamente, em doze localizações litorais pertencentes a seis Estados distintos: Espanha (Fuerteventura, Tarifa e Melilla), Itália (Bari, Brindisi e Lampedusa), Albânia (Durres e Vlorë), Tunísia (Mahdia e Sousse), Marrocos (Tarfaya) y Sahara Ocidental (Laayoune). Estamos portanto em frente a dois mares (Mediterrâneo e Adriático) e a um oceano (Atlântico). Doze pontos de partida ou de chegada, dependendo como se olha. Tal como o horizonte é uma recta imaginária que coincide com o nosso ponto de vista e com ele se move, Sandra Rocha propõe-nos traçar outras linhas que vinculem estes extremos. Todas elas apresentam a mesma problemática: são vias de saída ou de entrada para a imigração ilegal, consequentemente, o cenário de um autêntico êxodo contemporâneo de pessoas – maioritariamente jovens e adolescentes – que se lançam ao mar na esperança de alcançar uma vida mais digna na outra margem.

 

O horizonte impõe a sua distância, tal como o nosso olhar para o outro. Cada imagem desenha uma fronteira, o limite entre o visível e o invisível, tal como a linha do horizonte a meio, entre o não formal e o formal, entre o centro e as periferias e, analogamente, entre a vida e a morte. O oceano, na sua mobilidade perpétua e carácter denunciador, define-se pelo seu “carácter ambivalente[3]”: pode chegar a ser tão germinal como destrutivo. Atrás de cada uma das fotografias de Waterline esconde-se a história de milhares de passageiros clandestinos – magrebinos e, sobretudo, subsaarianos e asiáticos – novos argonautas que protagonizam uma diáspora invisível em múltiplas direcções, sem documentos, arriscando a vida na intenção, guiados pela utopia do “além”. Só o mar se interpõe no seu caminho para o Velho Continente, um espaço permanentemente vigiado e compartimentado em zonas que os Estados repartem perseguindo interesses económicos, políticos ou estratégicos e ignorando os direitos humanos.

 

Sandra Rocha recorre à fotografia, quiçá porque a sua essência, assim o manifestou Roland Barthes (A Câmara Clara), é essa pulsão de morte que traz consigo o desaparecimento ou ausência do referente, o resíduo de algo que já não está mas que foi. A cuidada mise en scène das doze imagens gera uma experiência envolvente, desenhando um horizonte simbólico em torno de um centro sobre o qual se projecta, directamente no solo, um vídeo do mar em movimento que visionamos à altura dos nossos pés. Trata-se de um plano sequência de pouco mais de 3 minutos de duração feito com uma Super-8 numa travessia entre a Albânia e Itália. A artista mostra-o da mesma perspectiva em que foi filmado, no topo de um barco de grandes dimensões cujos motores provocavam uma enorme agitação na água e uma ondulação que, por vezes, parecia confundir-se com o céu. A combinação de ambos os formatos – fotografia e vídeo – salienta o contraste entre inquietude e dinamismo, sossego e turbulência e, novamente, morte e vida. Sandra Rocha viveu vinte anos nas ilhas dos Açores e conhece bem a força do oceano, a sua capacidade devastadora e a sua força. Waterline é uma homenagem a essa frota invisível que se lança em travessias rumo à incerteza; uma ladainha iconográfica que enfatiza os relatos que se escondem por detrás de cada cenário marítimo, talvez porque, como aponta o poeta africano que abre este texto, a outra margem também nos diz respeito.

 

Marta Mantecón



[1] John Berger: Modos de ver. Gustavo Gili, Barcelona, 2001. pp. 23-25.

[2] Georges Didi-Huberman: Ante la imagen. Pregunta formulada a los fines de una historia del arte. CENDEAC, Murcia, 2010. p. 27.

[3] Véase Juan Eduardo Cirlot: Diccionario de símbolos. Siruela, Madrid, 2006. p. 344.

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FONSECA MACEDO - ARTE CONTEMPORÂNEA | 2017