A Importância do Perú Insuflável ◄ Voltar

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É difícil não sucumbir à tentação narrativa e descritiva que sobre a obra de Carlos Carreiro se abate, mercê da exuberância visual que nela se evidencia. As sugestões são tantas e tão diversas que a adesão faz-se inevitavelmente a partir dos objectos e dos episódios que queremos caracterizar, numa enumeração compulsiva.

A pintura de Carlos Carreiro revela-se na sua aparência, desvenda as suas fontes e abre-se ao domínio historiado em que a vemos e lemos. Proveniências díspares vertidas em imagens de imagens de imagens, na apropriação típica daquele que a si próprio se define como um “parasita de imagens”, manifestando um gosto irónico ao juntar aqui o talent de bien faire ao talent de rien faire.
Percorram-se essas proveniências, esses campos espoliados pelo artista, com a mesma leveza, liberdade e sentido do absurdo com que ele as terá percorrido.
Primeiro, a imagem impressa: revistas, livros de botânica, imagens científicas, publicitárias, guias turísticos, banda desenhada, ilustração infantil; depois a cultura material: jogos, brinquedos, meios de transporte, instrumentos e dispositivos tecnológicos, elementos decorativos; a seguir, a memória das viagens e os ícones regionais; finalmente, o meio artístico, particularmente o da arte clássica ocidental, os seus mitos e alegorias, os museus, a arte portuguesa.
Menções directas e subtis a artistas exprimem com clareza o plano referencial de matriz ecléctica: Chagall, Bosch, Max Ernst, Magritte, Bruegel, Odilon Redon.
O âmbito da desocultação das fontes pode ainda alargar-se mediante a atracção por movimentos artísticos e campos paralelos: o kitsch, o pop, o falso naïf, o absurdo surrealista, o neobarroco, o novo realismo. Apenas a título indicativo, assinale-se a existência de processos do acaso encobertos, de sistemas labirínticos de representação, espirais barrocas que se estruturam em composição orgânica onde cada elemento engendra outro. Assim é esta obra que mistura espaços e personagens, tempos e situações, afastada de um centro explícito e pulverizada de micronarrativas.
A obra incorpora também a sua própria história através dos títulos: Quando a cor entrou na família, Paisagem muito habitada ou Foram-se os figurantes ficaram os cenários – título de exposição –explicitam o que na pintura acontece e anunciam pistas de orientação do espectador. Outros títulos (Vernissage, A Gula do Pintor, Pintada à Pistola no Largo da Pena Ventosa, Horror Vacui) revelam que o pintor processa os conteúdos e as estratégias de mediação da pintura. Assim se pensa e assim se diverte, fazendo-nos reflectir e divertindo-nos também. 
 
Laura Castro
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FONSECA MACEDO - ARTE CONTEMPORÂNEA | 2017