A intenção de voar ◄ Voltar

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O labirinto é um ninho. Um espaço de poder secreto, trama de fios, raízes crescendo esquinas e muros. Ando nele sem correr, os pés tornam-se vigilantes, os ouvidos amplificadores – não vá uma formiga fazer-me tropeçar. Teseu levava um grande novelo de lã e uma acha de dois gumes para matar o monstro, mas Ariana está casada e Dédalo já não acredita em armas. Agora é jardineiro, leva as abelhas a passear à floresta. O percurso estreitou-se, estico o corpo todo como um girassol à procura de luz. Numa saca levo um bordado feito de folhas de tabaco, às costas uma camisola de papel de café, nas algibeiras, o tempo, o não tempo e o infinito. O jovem Teseu só conseguiu sair do labirinto porque Ariana, adornando o cabelo de luz, lhe iluminou os passos. Sigo os conselhos da noiva de Dioniso, bebo grinaldas de mar e brindo ao mel. Os minutos ganham o fôlego de séculos e de tanto me esticar, sinto o cheiro do Minotauro. Envolvo o rosto num véu, dizem que o bafo das feras é suficiente para atordoar a presa mas pelo odor prevejo que a carnuda dieta de outros tempos deu lugar a uma ementa sem gritos nem graça. Ah, o Minotauro afinal não tem cabeça de touro mas uma infinidade de cabeças enfiadas num corpo de metal. Enclausurado no labirinto subterrâneo, onde só o guerreiro pode entrar, tornou-se um ser de angústias, deprimido. À míngua de consolo, anseia por uma festa, uma boa história, um novo livro para ler. Assim que me vê levanta as mil cabeças que dizem e desdizem tudo o que sente e por fim confessa que tem uns patins para a troca e uma carapaça de tartaruga, do tempo em que as pitonisas liam o oráculo de Delfos. Calço os patins sentada num belíssimo sofá, único pertence deste personagem célebre, e como as mil cabeças se transformaram num nó gigante ofereço-me para as desembaraçar. Árdua tarefa. À medida que os nós se desatam, incham os olhos e nascem-me calos. Porém, sinto-me compensada. Cada cabeça livre sorri, seca e mirra até cair no chão em forma de semente. Há cem cabeças que reclamam histórias e quinhentas que só falam de doenças e desistência. Rasgo uma a uma todas as páginas das fábulas de Esopo, enrolo-as em bolinhas de papel e faço-as engolir como se fossem um remédio. O resultado é imediato. Riem-se à parvajola e falando em vozes de chuva miudinha perguntam em coro: “Esopo atrapalhava-se a falar como é possível que o ouvissem contar fábulas?” E as restantes cabeças, despertas de uma longa letargia cacarejam: “Era feio, beiçolas e pançudo, a maldade esperava em tudo”. E como não as sabia calar, persisti no esforço de desenvencilhar mais pescoços de fera. O chão do labirinto abriu pequenas fendas por onde se infiltraram as mil cabeças transformadas em sementes. Agora a meu lado, sentado de perna cruzada, está um homem pálido, sem voz nem asas. “O labirinto é um ninho, sabias?”, pergunto. Mas o homem ainda não consegue falar. Abre muito os olhos, a língua bífida sibila, sai-lhe da boca e enrola-se ao pescoço. Parece mesmo esparguete e como aquele trabalho todo me deu fome tiro um garfo e satisfaço o meu apetite. O homem ri-se e o seu riso é tão alegre que nascem prados, ovelhas e lobos, raposas e águias, burros e galinhas, golfinhos e macacos, todos de ouro precioso. “Teseu matou o Minotauro com uma arma construída pelo mesmo artesão que esculpiu a vaca de madeira onde um touro esplendoroso e a tua mãe, a mulher do rei Minos, te conceberam”, digo-lhe num repente, sem pensar. E ele articula num sussurro: “Não se pode confiar em deuses”. Depois bufa a lingua e com ela desenha no chão corpos que dançam.Tinge-se de azul, levanta-se no ar e desfaz-se numa espuma salgada. “O labirinto é um ninho de onde é preciso sair”, oiço um eco dizer. Com agilidade e lentidão uso o bordado como mapa, visto a camisola de papel, guardo todos os animais de ouro precioso e sigo a voz do vento que fala através das copas das árvores. Às vezes, a minha mão procura a saca. É um coração a pulsar, e os dedos lêem: “Só um pretexto para te comer Pireu grande amigo a cobiça atiça mata as fadas a má fortuna finge o coração tu vigia a consciência antes magra viva do que morta farta”. E quando menos espero tenho asas, rodopio, saio do labirinto e todas as constelações fazem uma roda para me receberem. Estes mistérios não se podem explicar, têm a força de tornados e fazem dançar poeiras e montanhas, sementes e oceanos. No labirinto de Creta havia muita gente que estava cá fora, uns amolecidos e derrotados, outros disfarçados de vitória. Lá dentro, havia cabeças troféu e gente parada de olhos pasmos num fantasma. Também se viam nomes em lápides que diziam “vive feliz depois de morto”. Ariana escreveu ontem, conta que no centro do labirinto onde estive nasceu uma horta, onde os sábios todas as tardes vêm dançar.

Susana Neves

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FONSECA MACEDO - ARTE CONTEMPORÂNEA | 2017