A Lua faz a Noite ◄ Voltar

"Quando era criança via o homem na lua. Parecia-me velho e curvado. Se escavares um furo através da terra, chegas à Austrália, diziam-me. E do outro lado da lua vive um coelho, acreditava eu. A lua faz crescer as plantas e arrastar constantemente o mar. Por isso, há muito sal. Tal como as plantas, precisam da água, do sol e da lua , também eu preciso de imagens, porque, em raros momentos, elas provocam em mim uma satisfação e uma harmonia indescritíveis. Estar consigo próprio e querer saber mais sobre a essência das coisas, sobre o mais íntimo, sobre os segredos que fazem derreter o gelo e a neve e correr a água. Penso em deslizamentos de terras, derrocadas, fendas e chuvas torrenciais. Os homens, os animais, as plantas e também as coisas falam apenas uma língua que eu gostaria de compreender melhor e expressar através de imagens. Eu queria compreender tudo, o borbulhar das fontes, o medo dos peixes, ou o brilho nos olhos das renas. ""As montanhas existem para que os homens se precipitem nas ravinas"", dizia Alfred Hitchcock. É claro que viver é sinónimo de perigo e de tormenta. Faz parte da nossa existência. ""A obra de arte é uma protecção contra o invisível que espreita e espalha o medo por toda a parte.É uma barreira de protecção contra o animismo difuso"", como desde muito cedo reconheceu o crítico de arte Carl Einstein. A preparação de uma exposição é para mim um processo exigente. A reflexão sobre o lugar e o espaço influenciam a criação das obras. Fará algum sentido enviar arte para os Açores? E o que é que faz sentido? Não importa, - o convite para expor em Ponta Delgada agradou-me imenso. De facto eu só conheço os Açores através do boletim meteorológico. Quando, nas notícias da tarde, era anunciado o anticiclone dos Açores, então o meu pai preparava a segadeira e cortava o feno dos prados. Quando era criança imaginava o anticiclone dos Açores redondo e muito quente. Uma espécie de esfera quente que esvoaçava de uma forma suave e veloz em direcção à Suíça, para fazer felizes os agricultores e secar o feno. Aceitei o convite para esta exposição e vejo já uma grande caixa com as minhas obras voando sobre o Atlântico, como ""a sala de aulas voadora"". Vou enviar objectos de cultura para uma ilha: montanhas e homens, sinais , sal para as ovelhas e cajados para os pastores. A arte permite um olhar mais profundo nos processos da natureza. Com a tecnologia, a nossa visão sobre as coisas altera-se permanentemente. Nós voamos à volta do mundo e vemos a terra de fora. Porque se chama Tito o primeiro turista do espaço? Nos últimos séculos os pintores permaneciam gelados nas montanhas, olhando-as de baixo para cima, a fim de pintarem colossos heróicos. Eu utilizo fotografias aéreas para, através de uma ampliação manual, encontrar os monstros, os espíritos e os seres fabulosos. Eu pesquiso a topografia das grandes almas, da essência, cuja ínfima parte somos nós. Tudo está em nós e tudo é simultâneo. É uma questão de distância, como nós vivemos o mundo. Observada de muito perto, qualquer pintura supostamente realista dilui-se em sinais abstractos, e transforma-se num texto pintado com uma escrita misteriosa, feita de cores e formas. Contemplada através da janela da alma, com um suave sorriso, a lua faz nascer as imagens. Josef Felix Müller "


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FONSECA MACEDO - ARTE CONTEMPORÂNEA | 2017