A Memória viva nasce a cada dia, florescendo ◄ Voltar

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Temos muito gosto em apresentar a primeira exposição individual “A Memória viva nasce a cada dia, florescendo” de Catarina Branco na Galeria Belo-Galster- er. No âmbito das preparações para esta exposição da artista, surgiram várias questões acerca do seu trabalho, que tentámos esclarecer através de uma entre- vista à artista. Depois de ter recebido as respostas da artista às nossas perguntas, achámos tinhamos de partilhar a nossa conversa com o público, uma vez que se fala de assuntos que têm a ver com questões pertinentes levantadas no âmbito dos trabalhos aqui apresentados, e que ao mesmo tempo relevam um aspecto importante do pensamento e da criação da própria artista.
Porque escolheste este título para a exposição e o que significa para ti?
A primeira característica comum presente nos meus trabalhos é, sem dúvida, a memória. Ao resgatá-la e tratá-la como uma coisa viva, torno-a ativa, permitindo assim o florescimento de novas histórias que acrecentam algo mais à minha identi- dade, acentuando as suas diferenças, para que ela não seja esquecida.desta, faço referência ao que é característico de qualquer civilização – o seu lado de miscigenação ou de hibridação. Nos meus diversos projetos, podemos verificar as ligações estabelecidas com África, o Brasil e o Ori- ente. Este aspeto coloca as minhas obras numa perspetiva verdadeiramente globalizante, refletindo sobre a ideia de equivalência ou partilha cultural.
Os materiais que usas remete na maioria das vezes para o trabalho manual (das mulheres) - p.ex. as TEIAS DE LUZ desta exposição usam o tear como forma tradicional, muito conotado com a criação manual - arts&crafts? - de lavores femininos. Artistas como Rosemarie Trockel (DE) e Joana Vasconcelos (PT) também usam ou usaram esta ligação para pronunciar uma crítica ao papel secundário dos trabalhos manuais / arts&crafts na arte contemporânea, e tb usaram para questionar ou reforçar a ideia do papel da artista feminina no campo das artes plásticas. Existe para ti, uma ligação com estas outras artistas, conceptualmente ou na prática; questionaste alguma vez o teu lugar na cena contemporânea das artes - ou sentiste questionado o lugar das mulheres como artistas?
cialmente pelas mulheres. Pode ver-se uma perspetiva feminista na escolha dos materiais e no cuidadoso trabalho manual envolvido; um processo realizado em privado, que requer muita paciência e atenção a cada pormenor. Trata-se, pois, da beleza da fragilidade. A esse trabalho sobre memórias factuais e emocionais, e à apropriação delas, acrescento novas leituras e possibilidades de interpretação, impedindo que esse imaginário nos escape e fique no esquecimento.
É através da memória (como sendo uma grande potência criativa) que eu estabeleço as mais diversas conexões e efetuo a minhas análises críticas e reflexivas sobre o lugar que a mulher ocupa no meio artístico, que coin- cide com a análise de estudo que a artista Rosemarie Trockel tem vindo a desenvolver e a trabalhar. Em resposta à afirmação de Beuys, de assume que “ todo o homem é um artista”, a divisa de Trockel tem sido: “ todo o animal é um artista feminino “ . As imagens das malhas, padrões abstratos ou símbolos familiares foram introduzidos pela artista como materiais e formas consideradas tipicamente femininas. No entanto, não é de todo uma preocupação para a artista arrumar o género. O seu trabalho não permite interpretações apressadas. A diversidade dos seus meios e temas, como o da memória e experiência, resulta da combinação da complexidade e da am- biguidade de cada obra individual.
Decerto, nem todos os artistas que trabalham com essas temáticas femininas se definem sob influência feminista, ou mesmo conhecem o seu desencadeamento. No entanto, nos trabalhos daqueles familiarizados com o pensamento teórico de Judith Butler, Simone de Beauvoir e Joan Scott, bem como na larga aplicação de elementos, materiais e práticas presentes nas composições e discursos, fica difícil não perceber as conexões inconscientemente realizadas pela influência do pensamento feminista.
Novembro de 2014 A Galeria Belo-Galsterer agradece à artista Catarina Branco a sua disponibilidade para esta entrevista.
No meu caso, tenho vindo a verificar que o papel da mulher na sociedade, a sua força criativa, tem sido um assunto menosprezado e pouco valorizado, até aos nossos dias. Por isso tenho estudado, fundamentado e desenvolvido o meu trabalho, a partir da plasticidade das vivências quotidianas e do imag- inário popular, resgatando o uso do recorte do papel, técnica herdada essen-
As mulheres artistas continuam a defender a sua posição num mundo ainda dominado pelo homem e a insistir no facto de a arte poder ser vista como uma afirmação distintiva de um indivíduo único. Eis que começa a ser urgente, mais uma vez, debater e refletir sobre o papel desta nova geração de artistas mulheres, que trabalham a questão da identidade asso- ciada à da memória, e se, realmente, existe um espaço de pensamento e produção independemente do género.
A arte feminista? Ela (ainda) existe?
Além disso, algumas mulheres que recusam categoricamente o termo têm ati-tudes, ideias e comportamentos a que eu chamaria de literalmente feministas, enquanto outros, que se descrevem a si mesmos como sendo feministas, não se comportam como tal.
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FONSECA MACEDO - ARTE CONTEMPORÂNEA | 2017