A montanha mágica de Cristina Ataíde. ◄ Voltar

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A montanha seduz-nos e nos mete medo por manter-se como um mistério insondável, nascida da vontade derrisória da natureza ao emergir das profundezas da terra em direcção ao céu. Acontecimento geofísico decorrente de sismos, de ajustes de placas, de vulcões voluntariosos, a montanha nasce da vontade soberana de Hades. É, no entender mito-filosófico, a morada dos deuses, o Olimpo a casa de Zeus, deus dos deuses. É também metáfora das realizações humanas, símbolo individual da existência onde cada humano terá que subir, quer seja mágica ou não. Os idealistas e românticos alemães fizeram-na o lugar das especulações estéticas e filosóficas. Caspar David Friedrich tornou-a o espaço do sublime inalcançável; Nietzsche e Wagner, o crepúsculo dos deuses; Thomas Mann, apenas metáfora. Assim, a presença e força da montanha exerce uma incomensurável atracção sobre o homem, ceifando vidas de quem a desafia, contudo tornando-se também um espaço privilegiado para autores que a vêem como inspiração continuada. Cristina Ataíde é um destes autores que vêem na montanha algo que transcende do espaço físico ao símbolo e metáfora, sendo também um mistério em si. Nasce daí então a sua necessidade de percorrê-la, dada a necessidade de compreensão da sua natureza física, desde os seus acontecimentos – reentrâncias e protuberâncias, concavidades e convexidades, abismos que provocam vertigens, visões, esclarecimentos. As caminhadas de Cristina Ataíde – quer físicas ou mentais - sobre algumas montanhas dão-lhe matéria e insumo para o laborioso exercício artístico. A essa sua prática soma-se ainda o da constante necessidade de registar mental (a memória evocada como experiência fenomenológica) e corporalmente (o esforço físico como componente conceptual) o espaço percorrido. Assim pode tornar estas superfícies em algo palpável, táctil, i.e., em instalações onde combina o desenho, a escultura, a fotografia e a escrita. A exposição “Lugares de Deriva” nasceu da experiência in situ da artista em visita a algumas montanhas das ilhas dos Açores. Daquela paisagem misteriosa, onde combinam-se paisagens verdejantes – numa verdura que o verde jamais o poderia ser - e agrestes – larvadiana e cinzenta onde veios de fumos estão em constante ascensão para lembrar-nos que tudo está em constante mutação, sempre. As montanhas são pontos perdidos no vasto Oceano Atlântico, erguendo-se aqui e acolá na sua potência de vontade para recorrermos ao léxico filosófico de Nietzsche. Desta paisagem romântica e evocativa, feita de mudanças constantes de humores de Gaia, que hora apresenta-se enevoada e lúgubre, hora cristalina e solar que é feita a mostra. Em “Lugares de Deriva”, o que faz Cristina Ataíde é imortalizar a (sua) experiência do (seu) corpo nestes lugares e, assim, torná-las a forma inequívoca de arte. Afinal, como enunciou Arthur Schopenhauer, os artistas emprestam-nos seus olhos para vermos o mundo.

Lisboa, Abril 2009

Paulo Reis 

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