A PLANITUD COMO PUREZA EM EMILIO GAÑÁN / A VIAGEM INTERIOR DE IGNACIO LLAMAS ◄ Voltar

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A PLANITUD COMO PUREZA EM EMILIO GAÑÁN

É verdade, Mondrian atingiu o limite expresivo, é “a opção analítica” da arte moderna (Menna). “O cubismo -afirma Mondrian- percebeu muito bem que a representação em perspectiva perturba e fragiliza a aparência das coisas, enquanto que a representação plana expressa-a de um modo mais puro” A estética de Emilio Gañán (Plasencia, 1971) nutre-se desta máxima, e continua a apresentar soluções no âmbito dos caminhos da abstracção geométrica, na procura de uma arte de valor universal como via de conhecimento. Para ele, a geometria é “o lugar onde as formas se relacionam e onde existem outras leis que se criam, se destroem e se transformam. Este lugar foi também concebido, em 1913, por Frantisek Kupka “O homem cria a exteriorização do seu pensamento através da palavra. Por que não haveria de poder criar em pintura e em escultura independentemente das formas e das cores que o rodeiam?” Porém, dentro deste ascetismo geométrico cabem também “fragmentos de constelação” ou “ a invocação e a conjura de fantasmas” graças à intuição e à imaginação “que é aquela que vai acrescentando às formas aquilo que falta para se completarem” (Palazuelo) “Através da geometria, continua Gañán, da disposição dos elementos, organizo as minhas peças. Supostamente a abstração geomética é objectiva, neutra e racional, mas é sabido que a arte morre por excesso de bom senso. Por isso há que pervertê-la...”

O olhar de Emilio Gañán sobre a realidade mostra uma predisposição emocional que o faz interessar-se pelo “espíritu” (essência formal) mais do que pelos elementos definidores ou acidentes das coisas. Em termos kantianos, estaríamos a falar do “noumenon” frente ao “fenomenon”. Os pontos fundamentais da expressão autónoma são depuração, cores lisas e primárias, síntese e linha “limpa”. A não objectividade e a solução de uma arte que se explica nos seus próprios limites autorreferenciais, foi continuam a ser o encontro e a herança da abstracção geométrica, a qual Emilio Gañán dá novos conteúdos.

Martín Carrasco Pedrero

A VIAGEM INTERIOR DE IGNACIO LLAMAS

O “caixismo” sempre me interessou, não sei se existe o termo, mas é urgente uma teoria da caixa, que nos contenha, pois trata-se disso. Interessa-me o espantoso mundo de Joseph Cornell (1903-1972) e as suas caixas, capaz das maiores descobertas, onde as cenas quotidianas podem tornar-se fábulas. Numa caixa, sabe bem Ignacio Llamas (Toledo, 1970), cabem as “Arquitecturas del alma”(Arquitecturas da alma), os “Espacios de trascendencia” (Espaços de transcendência), os “Contornos de luz” (Contornos de luz), o “Vacío y silencio” (Vazio e silêncio), os “Espacios habitados” (Espaços habitados), os “Residuos” (Resíduos), “Los hogares del espíritu” (Os lares do espíritu), a “(In)comunicación” ((In)comunicação), os “Cobijos” (Abrigos), a “Ausente presencia” (Ausente presença), os “Lugares de la nada” (Lugares do nada), os “Espacios (in)mutables”(Espaços (i)mutáveis), os “Anhelos de infinito” (Desejos de infinito)…

Nas suas caixas, de poética zen, cabe todo o sentimento, pois estão realizadas para um olhar meditativo, com certeza expansivo, sugestivo… Os espaços emocionais dão ocasião ao encontro connosco, numa viagem interior à qual somos convidados pelo próprio artista, “A principal função da arte é a comunicação de um conteúdo, ou seja, aquilo que há de imortal no ser humano e que permite estabelecer uma relação com o absoluto. Este conteúdo, através do qual é comunicado uma parte do ser, afecta directamente o espírito. Faz com que a obra de arte seja uma viagem interior, uma viagem até ao coração do artista, até o coração da humanidade”. Na obra de Ignacio Llamas há sempre um desejo de transcendência, de procura do absoluto, um desejo sincero de reflexão, sem máscaras que impeçam o encontro com o Eu. As suas caixas são um recolhimento de intimidade e silêncio, paragens que nos deixam, pelo menos por um momento, o gozo de um pensamento. O nosso olhar interior descobre e encontra-se… Vendo, vemo-nos. Uma vez contemplada a mostra, “só fica a desculpa do olhar, só o silêncio, só a perda”...

Martín Carrasco Pedrero

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FONSECA MACEDO - ARTE CONTEMPORÂNEA | 2017