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A exposição que João Pedro Vale apresenta coloca questões que, não sendo novas no seu trabalho, nos podem surpreender. Este projecto é construído por intervenções aparentemente independentes, uma característica vincadamente autoral, em que a identidade constitui a linha central de reflexão e de questionamento.
ENGLISH AS SHE IS SPOKE tem como base um guia de conversação do século XIX, intitulado “ENGLISH AS SHE IS SPOKE – O Novo Guia de Conversação em Portuguez e Inglez, em Duas Partes”1 atribuído a Pedro Carolino e José da Fonseca. O livro é referenciado como um clássico humorístico pelo facto de conter uma infinidade de erros fonéticos e gramaticais que se devem ao facto dos autores não saberem falar inglês. Acresce ainda a dúvida sobre a autenticidade da co-autoria da obra. Este livro, como qualquer outro manual, teve como função auxiliar a comunicação, ou seja, concorrer para a integração daqueles que, desconhecendo a língua de um país de acolhimento, para onde emigraram, ultrapassam dessa forma as limitações que a adaptação impunha ao seu quotidiano.
É neste âmbito que o projecto de João Pedro Vale ganha espessura e se desdobra em diferentes áreas da produção artística, através da realização de um filme em co-autoria com Nuno Alexandre Ferreira, de uma exposição de desenhos e da concepção e design gráfico do cartaz.
O que atravessa a diversidade de meios utilizados neste projecto é a identidade e a sua evocação frente ao desenraizamento cultural, à diferença social e à incomunicabilidade. O que interessa ao artista é reflectir sobre o universo em que detém o seu olhar, independentemente da técnica e dos meios escolhidos para representar o seu processo de questionamento.
Os desenhos, sobre fundo negro, remetem-nos para um imaginário escolar, a ardósia da sala de aula (que podemos associar ao início do filme), mas simultaneamente para a maravilha da imagem (nocturna?) dos edifícios iluminados do Convento da Esperança, no Campo de S. Francisco, ou ainda para o dente de baleia que inscreve na memória colectiva a arte baleeira, internacionalmente conhecida pelo palavra inglesa scrimshaw, e que representa uma das mais expressivas manifestações culturais dos Açores. O fado, expressão da identidade e da cultura portuguesa, é dito com um forte sentimento de “saudade” nas palavras de John, a personagem principal da história do filme,e contrapõe-se a uma outra frase que é obrigado a repetir numa das cenas de interrogatório: “I love this country”. Esse país que John é compelido a amar é um território que se esconde na ambiguidade da experiência e do desejo.  Entre o sonho de uma carreira musical e a experiência do desenraizamento e da privação.
Tal como nos desenhos, em que a cultura popular e erudita se cruzam, o filme recupera referências do cinema, do teatro e da televisão. A acção decorre dentro de um espaço que se reorganiza como um palco de teatro, num campo de basquetebol, numa cela ou no quintal pobre de subúrbio. A iluminação dramática e nocturna tem uma nota de film noir, quase a preto e branco. Os diálogos, reescritos a partir do livro, têm como referência principal a série inglesa “Follow Me”, criada pela BBC Learning Television, mas, tal como acontece no livro, esses diálogos parecem quase perder o sentido. As palavras são repetidas como se fosse necessário forçar a comunicação, o que demonstra que a adaptação e a pertença a um lugar e à sua comunidade tropeçam na incomunicabilidade, na intolerância e no desfasamento temporal.
Voltemos à ardósia negra para ver a mão escrever as palavras correctas no quadro, ou aos desenhos da galeria, que recuperam na nossa memória a identidade colectiva.


João Silvério
Setembro 2010


1 - Conforme a referência a esta obra em: www.exclassics.com/espoke/espkcont.htm
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FONSECA MACEDO - ARTE CONTEMPORÂNEA | 2017