A voz das paredes ◄ Voltar

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Inscrição. Acto ou efeito de inscrever, escrever, assentar algo. Gravar. Traçar uma figura no interior de outra, perpetuar, assinalar. Dar corpo e voz ao murmúrio oculto das paredes. Riscar. Arriscar. Avançar o gesto irrequieto sobre a superfície ardilosa da memória e sobre a tinta, a tela, o gesso, o papel amassado. Assim são os gestos de Urbano nas pinturas que produz. Gestos essenciais, dir-se-ia, na vontade do esquisso inciso no suporte como se procurassem um sentido para além do visível, um esteio identitário para além do identificável. Foi essa vontade de inscrever que, nos trabalhos apresentados na Galeria 111 em Lisboa, fez nascer das cinzas flores, numa alusão imediata aos incêndios que ocorrem em período de tempo instável com futuro incerto à vista. Mas mais do que a circunstância de um acontecimento profundamente destruidor, do que se trata é fazer de novo do tempo - não um tempo atmosférico ou necessariamente cronológico, mas simbólico - matéria de trabalho e reflexão. São imagens impressivas, as que se gravam nas paredes de telas enegrecidas, entre sobrevivência e decesso. Memorandos que opõem o gesto revificador do homem, a fragilidade das flores à dureza áspera da matéria e do pó onde a imagem pode renascer. A este processo não serão alheias as raízes insulares de Urbano e a percepção de uma paisagem luxuriante, evidentemente finita nas suas fronteiras entre terra, céu e mar, com vista relacional para todo o mundo. Do que se trata agora, nos trabalhos expostos na Galeria Fonseca Macedo, é exactamente de um retomar dessa presença fulgurante da natureza no processo pictórico através de um efeito inverso ao anterior. Da inscrição da sua memória à deposição densamente lumínica da tinta em manchas de cor, retomando de forma mais evidente um dos géneros emblemáticos da história da pintura, a Natureza Morta, como ponte para repensar a vida. A pintura de Urbano tem aliás essa característica, a de procurar temas afectivos, triviais, comuns ao ser humano, revestindo-os de um sentido de intemporalidade, intencionalmente perseguido, sob a utopia de um território idílico sedeado entre sonho e realidade.

Julho 2008,

Ana Ruivo

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FONSECA MACEDO - ARTE CONTEMPORÂNEA | 2017