Aeronáuticas ◄ Voltar

"I. Casas que voam: um prólogo Terá sido em 1291: de acordo com a lenda, a humilde casa da Virgem, situada na cidade de Nazaré, foi, nesse ano, elevada nos ares e transportada por via aérea para longe da Palestina. O extraordinário acontecimento, executado por anjos, traduzia um plano miraculoso para salvar a Santa Casa do avanço dos exércitos muçulmanos. Ainda segundo os mesmos relatos, a casa terá aterrado em Tersatz, nas costas do Adriático, e de novo elevada e transportada para a cidade italiana de Loreto, onde terá chegado em 1294, três anos depois de ter partido do Médio Oriente. A Irmandade das Carmelitas, ordem cuja origem remonta à Palestina onde, afirmava, havia sido guardiã da casa da Virgem quando esta ainda se situava na cidade de Nazaré, obteve em 1489 o tão reclamado estatuto de guardiã da mesma casa, agora em Loreto. São as Carmelitas Descalças, da igreja de S. Maria da Nazaré, em Veneza, que em 13 de Setembro de 1743 contratam Giambattista Tiepolo para, no tecto da nave, pintar este milagre fundador. Aí, Tiepolo executa um dos seus mais monumentais frescos: através de uma abertura a todo o comprimento do tecto, rodeada por uma balaustrada, a igreja abre-se para o céu. Nós, em baixo, e os atónitos espectadores que, em cima, povoam esta espécie de varanda, testemunhamos, numa enorme agitação aérea, a casa da Virgem a ser transportada por anjos numa nuvem. Nesta perspectiva dal sotto in sù vemos a casa, a Virgem em pé sobre o seu telhado, e percebemos estar a assistir ao início da aterragem. Tiepolo rapta-nos assim à realidade e transporta-nos para um tempo e um local onde não vivemos: Loreto, no ano de 1291. Tornamo-nos espectadores do acontecimento, parte do grande milagre aeronáutico. Ou melhor, seria isso que aconteceria se o tecto e o fresco não tivessem sido destruídos por uma bomba austríaca que, como uma casa voadora, caiu sobre a igreja veneziana em 1915. Restam-nos os estudos, as fotografias e os restantes tectos pintados por Tiepolo. II. As casas voadoras de Maria José Cavaco: sete desafios visuais As minhas casas voadoras é o título da presente exposição de Maria José Cavaco. Ele contém e traduz a ideia directriz de todo o projecto: a de que aquilo que vemos ou iremos ver são casas a voar. Uma tal ideia expressa um desafio, que é tanto físico como conceptual, e uma possibilidade, que é eminentemente visual. Esta combinação de desafio e possibilidade marca, de forma estrutural, todo o projecto e a sua concretização é o resultado do trabalho da autora no seio de um campo de ideias fundamentais. Destas elejo sete: a ideia de projecto, a ideia de série, a ideia de transformação, a ideia de distorção, a ideia de exactidão, a ideia de ilusão e a ideia de reflexo. Nelas assenta toda a complexa interacção que esta exposição/projecto cria com o seu tempo, a sua cultura e, em particular, as imagens e os objectos visuais que a formam. Mas, mais importante, estas sete ideias ou domínios de actuação, definem-se, em termos operativos, como sete desafios ao processo de construção de sentido por parte do espectador. Esse é o acontecimento central de As minhas casas voadoras. 1. A ideia de projecto A ideia de projecto significa que aquilo que é dado a ver não é tudo o que há para ver; significa ainda que os resultados - os objectos - são consequentes com o processo, o qual, desenrolando-se ao longo de um dado tempo, se manifesta num dado número de estudos. A ideia de projecto pressupõe, assim, não apenas a ideia de processo mas também a ideia de investigação. O seu âmbito é a produção de sentido por via de uma metodologia artística. O projecto de As minhas casas voadoras desenvolve-se em três domínios e em três tempos: o dos estudos (1997-2000), o dos objectos pintados (2001-2002) e o da exposição (2002) - a qual é constituída pelas próprias pinturas e, não menos importante, pelo catálogo, que não só revela e expõe todas as componentes do projecto mas atribui ao observador o papel de espectador do processo criativo desenrolando-se no tempo. 2. A ideia de série Quinze pinturas: doze de fundo preto e três de fundo vermelho. Formam três séries: cada uma é constituída por quatro pinturas a negro e uma a vermelho. Mas subjacentes a estas séries estão outras: as duas séries de estudos de proporções, as duas séries de modelos tridimensionais, a série de estudos de luz e sombra, a série de estudos de cor e movimento. A ideia de série pressupõe uma dupla passagem: da obra para o objecto e do único para o múltiplo. Acima de tudo, opera uma transformação no olhar: a instantaneidade dá lugar à decorrência. Por outras palavras, obriga a um alargamento temporal e perceptivo. 3. A ideia de transformação A transformação é a consequência, matérica ou perceptiva, operada numa forma sujeita ao movimento - como acontece em todas as formas voadoras. As casas voadoras de Maria José Cavaco são uma só casa - uma casa essencial, uma ideia estrutural de casa. Uma casa que, ao longo de cada série pintada, se transforma tanto cromática como luminicamente. Esta ideia de transformação pressupõe, assim, uma outra: a ideia de movimento. A transformação dinâmica de uma casa, no espaço e no tempo, eis o seu voo. Mas, ao mesmo tempo, a ideia de transformação adquire aqui uma outra dimensão: a da transformação, formal e conceptual, operada, no decorrer do projecto, a dois referentes paradigmáticos: o desenho de 1997 e o modelo da casa em madeira, de 2000. 4. A ideia de distorção Mas uma casa voadora é sempre uma casa que voa a partir do ponto de vista de um dado sujeito. Como diz o título, estas são as casas voadoras de Maria José Cavaco. E também as nossas, porque o nosso ponto de vista é, afinal, o dela. Aí reside a principal operação da autora: obrigar-nos a ocupar um dado lugar, a ver o mundo a partir de um ponto de vista por si escolhido. Esta visão feita a partir de um lugar determinado é sempre uma visão distorcida, uma visão perante a qual o mundo - e as suas formas - se apresenta irremediavelmente deformado. Por isso, também, irremediavelmente humana. A perspectiva e as suas distorções são disso sinal e sintoma. 5. A ideia de exactidão Múltiplos estudos bidimensionais. Diferentes modelos tridimensionais. Pintura com tintas industriais - esmaltes aquosos e sintéticos - usadas de forma rigorosa. Aplicação de máscaras. E, ainda, a rigorosa definição de cada pintura como artefacto pintado: enunciando-se a sua cor, a composição da sua tinta, ou as áreas ocupadas. A procura da exactidão revela-se neste domínio dos meios e dos processos que atravessa todo o projecto e na sua necessidade de iludir o acaso ou anular o arbitrário. O seu conflito com a forma dinâmica e distorcida e com a ideia de transformação é puramente aparente. 6. A ideia de ilusão A ilusão na pintura reside nessa estranha discrepância entre o que vemos e aquilo que está efectivamente à nossa frente. Em ela fazer-nos crer que é mais do que pintura mesmo quando continuamos a ver pintura. Estas casas voadoras, à semelhança da casa voadora de Tiepolo, tem uma dupla espessura: a fina espessura da película de tinta aplicada sobre o suporte - explicitamente acentuada nos bordos laterais das telas - e a espessura tridimensional que a cor e a perspectiva constróem na nossa mente. Mas, no seu despojamento pictórico e na sua acentuada geometrização, estas casas voadoras participam ainda numa outra forma de ilusão: essa que ocorre sempre que o estímulo à nossa frente conduz a percepções diferente em momentos diferentes. A tridimensionalidade destas é, assim, mutável, dinâmica e, por isso, um outro sintoma da ideia de transformação. Mas, ao mesmo tempo, uma reflexão no seio de uma vasta cultura de ilusão, que é a nossa. 7. A ideia de reflexo O observador ao ver as pinturas observa-se nelas. Esta dimensão de projecção é central à ideia de ilusão mas, não menos importante, à de participação e integração do observador no objecto pictórico. Por via do reflexo especular o observador é, assim, transformado em espectador: alguém que não apenas observa a obra mas participa e reflecte-se nela. Através dele, todo o projecto de As minhas casas voadoras encontra a sua consumação última. III. Casas que voam: um epílogo Entre o milagre aeronáutico de 1291, a pintura executada por Tiepolo entre 1743 e 1745 e, duzentos e cinquenta e sete anos depois, as casas voadoras de Maria José Cavaco, o que existe é uma coincidência: uma coincidência admirável e involuntária. Mas uma coincidência traduz um campo de possibilidades, estabelece um fio possível de sentido, um modo de entrelaçar o tempo. É esse fino fio que, como espectadores, assistimos a correr ao longo do tempo e, mais importante, a voar até nós. Victor dos Reis"


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FONSECA MACEDO - ARTE CONTEMPORÂNEA | 2017