Alminhas, 2013 ◄ Voltar

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Deambulando pelos  Jardins da Gulbenkian - Fez-se luz -  descobri que o caminho a percorrer passa pela ideia de encruzilhada, onde eram normalmente erguidas as - Alminhas. O jardim possui uma geometria interessante e subtil, permitindo estabelecer, mais facilmente, e no meu entender, uma relação harmoniosa com qualquer objecto que se venha a introduzir. Isto para além de possuir uma área densamente arborizada, com vegetação autóctone e exótica, apresenta pequenas clareiras, pequenos espaços intimistas com potencial para, aí, ser depositada uma qualquer peça.

 

Portugal possui como característica singular no seu património artístico cultural, as denominadas - Alminhas. Não há certezas quanto à sua origem, mas sabe-se que a crença em deuses protectores, dos caminhos e das encruzilhadas, é muito antiga.

Antigamente as viagens eram muito perigosas e os viajantes procuravam a ajuda dos deuses para se livrarem dos perigos que tinham que enfrentar.

Em geral, as Alminhas eram erguidas em encruzilhadas, quase sempre em caminhos rurais, em matas, perto de cursos de água, incrustadas em velhos muros ou na frontaria de casas, podendo ser construídas nos mais diversos materiais. São pequenos altares, padrões de culto aos mortos, onde geralmente os viajantes paravam um momento para deixar uma oração. Era frequente encontrar velas, deixadas pelas pessoas que passavam no local, ou mesmo oferendas de flores.

As alminhas seriam um local para a salvação das almas onde ficariam durante algum tempo a purificar para, assim, libertarem-se das contingências do purgatório.

Contrariamente, ao que seria expectável, as quatro - Alminhas - projectadas para o jardim da Gulbenkian, são uma homenagem à vida e evocam um poder invisível e misterioso. São fonte de vida, meio de purificação, símbolo de felicidade e um triunfo da vida sobre a morte. São objetos catalisadores de energia, lugares de oração, de meditação onde poder-se -á depositar oferendas em troca de proteção e facilitar o encontro connosco próprios.

As Alminhas serão colocadas em diferentes espaços do jardim, preferencialmente em zonas com maior densidade vegetal, no meio das pequenas matas, por serem locais de repouso, de serenidade, de aparições, de revelações e de reconciliação que conduzem a uma quase obrigatória paragem e à reflexão. As Alminhas transmitem luz, são espíritos bons, que convidam à meditação, dão esperança e novas oportunidades. O aspeto floral - que as peças apresentam - traduz as virtudes da alma, a perfeição espiritual, a floração, o regresso ao centro, a unidade. São tesouros, reservatórios da vida espiritual e recetáculos de influências celestes.

Fundamento e desenvolvo o meu trabalho a partir da plasticidade das vivências quotidianas e do imaginário popular, estabelecendo, para esse fim, relações internas. A emoção e o uso do recorte do papel, como técnica herdada dos meus antepassados, permite-me interpretar as histórias de um povo nas suas mais diversas formas.

As Alminhas são consequência de um recolhimento introspetivo. Apresentam-se em dois sentidos: o coletivo - que apela para um património local; e um subjetivo - que reclama o valor da capacidade criativa. E podemos considerar, ainda, um terceiro, pela contemporaneidade associada à globalização (nas suas mais difusas manifestações), na medida em que estou preocupada em refletir sobre as questões que se prendem com a minha identidade e, ao mesmo tempo, com culturas de outras origens. A fusão de referências permite diferentes leituras identitárias mesmo quando são ficcionadas. A ficção dá-me liberdade criativa e tornar-se-á num instrumento de trabalho necessário à criação e ao processo criativo. As barreiras culturais serão quebradas proporcionando interligações entre diferentes e diversas identidades. Não se trata de uma análise meramente regionalista, focalizada apenas numa determinada cultura, mesmo tendo em consideração a enorme riqueza da história popular Açoriana. Neste sentido, é fundamental que se faça a interligação com outras culturas.

Entendo que, deste modo, poderei reinventar-me dando origem a novas formas de expressão, por intermédio de uma perspetiva mais contemporânea. A fusão de culturas e a abertura ao mundo enriquece e dá-nos uma visão mais global e ao mesmo tempo permite-nos valorizar, descobrir ou reinterpretar aquilo que é, ou julgamos ser, a nossa identidade.

Presto homenagem à natureza, à densidade vegetal e ao exotismo das plantas vindas de outros países e que, de forma luxuriante, marcam presença no jardim da Fundação Gulbenkian, assim como, e simultaneamente, faço um apelo à contemplação e ao recolhimento.

 

O poder dos objectos comunicadores

 

Ao longo destes últimos meses tenho experienciado as mais diversas formas de comunicação sensorial. A sensação de que as “Alminhas” dialogam connosco por intermédio de sons/reflexos/movimentos/cheiros não deixa de ser muito curiosa e, simultaneamente, misteriosamente fascinante.

A carga espiritual que possuem, e emanam, é muito poderosa e específica. Manifesta-se através de múltiplos sinais acompanhados por uma luminosidade invisível que faz a ligação comunicacional com o mundo terrestre, manifestando-se através do meu corpo e da materialização das formas criadas. As obras apresentam um aspecto místico, quase tribal, que nos remete para poderes enigmáticos e curativos. Esta carga energética - medicinal e purificadora - possibilita o encontro entre o divino e o nosso estado mais íntimo, transportando-nos para um espaço alternativo, no qual estamos em pleno contacto com a serenidade dos jardins e com a sua densidade vegetal - originando metamorfoses botânicas e uma troca de múltiplas experiências sensoriais.

 

 

Catarina Branco

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FONSECA MACEDO - ARTE CONTEMPORÂNEA | 2017