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Sobre Pinturas Recentes de Pedro Cabrita Reis

Há muito a dizer sobre a força do trabalho de Pedro Cabrita Reis. Qualquer que seja o suporte – pintura, escultura, instalação e até a fotografia — os seus trabalhos são sempre avassaladores, épicos, torrenciais. Muitas vezes os seus gestos são expansivos, ocupam grandes territórios e o espectador é tomado por uma avalanche de experiências, outras vezes, como é o caso destas Pinturas Recentes, reina a densificação, a intensificação e a concentração. Em todos os casos, domina a inquietação e assiste-se a uma luta constante contra o entorpecimento das forças sensíveis: manter os olhos abertos e permanecer acordado podiam ser os motes de toda a sua obra.

Estas pinturas são nocturnas e atmosféricas, não têm género, classe ou tipo, mas pertencem àquela espécie de seres que são ásperos, densos, espessos. As camadas de tinta denunciam a intensidade e fisicalidade do olhar que as pinturas trazem à superfície: ver estas paisagens é um acto físico, convoca todos os músculos e o ver deixa de ser uma acção visual para ser um acontecimento total.

Podia dizer-se tratar-se de uma redescoberta da visão, isto é, é-se por estas pinturas levado a redescobrir as regiões mais impressivas da visualidade, aqueles modos de ver em que, como quem acaba de despertar, tudo é incandescente e fere e impressiona o olhar: os elementos das pinturas transformam-se em pontos luminosos que encadeiam e prendem o olhar e a visão clara assume-se como processo a ser conquistado pelo sujeito. Uma ambição pela claridade e nitidez que nada tem que ver com tornar legível as imagens que estas pinturas sugerem: não se trata de ver imagens, mas de conseguir, impressão após impressão, domar as forças animais da visão.  E ver, como se sabe, é pensar e é imaginar, por isso estes trabalhos pertencem a essa região incerta onde a visão é uma metáfora a implicar a totalidade das forças produtivas da inteligência e o sujeito um animal sensível.

Podia dizer-se que estas pinturas são paisagens, mas isso é dizer pouco. O horizonte que constroem não diz respeito a uma relação com a paisagem-natural, mas assinala a transformação do espectador na sua própria paisagem: os referentes não são exteriores, mas elementos primordiais a que se tem acesso quando se recorda, se olha para trás e revolvem as imagens originárias do mundo. O espaço destas pinturas é universal, não por ser anónimo ou puro, como o espaço geométrico, mas porque todo aquele que, no esforço em ficar desperto, mantém os olhos abertos o consegue reconhecer.

Os latinos diziam “per aspera ad astra” (o caminho para os astros é feito de aspereza) e este ser “áspero” salta à vista nestes trabalhos de Pedro Cabrita Reis. Um ser áspero que não é retórico ou metafórico, mas constitui uma descrição precisa da coisa destas pinturas. Na tela acumulam-se vestígios que testemunham os movimentos da matéria e que sugerem as deslocações das grandes massas tectónicas terrestres que arrastam tudo atrás de si e, dessa forma, rasgam a terra e abrem fendas na lisura e homogeneidade das imagens visuais. Não são cenários de desolação ou pós-apocalípticos, mas lugares onde a superfície terrestre surge em continua transformação e metamorfose.

NUNO CRESPO

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FONSECA MACEDO - ARTE CONTEMPORÂNEA | 2017