Arpad Szenes (1897-1985) ◄ Voltar

"

Maria Helena Vieira da Silva e Arpad Szenes conheceram-se em Paris em 1928, casaram em 1930 e viveram juntos até à morte de Arpad. Foram 55 anos de uma vida em comum de excepcional riqueza, no plano afectivo e criativo. Desde 1930, Arpad Szenes desenhou e pintou exaustivamente a sua mulher, mas os melhores retratos que dela fez datam provavelmente do período de exílio no Brasil, de 1940 a 1947. Calma e silenciosa, concentrada no seu trabalho, Maria Helena foi para Arpad o modelo ideal, o tema perfeito, conjugando o amor pela arte e o amor pelo objecto . O próprio Arpad dizia: “Muitas vezes, depois do jantar, Vieira trabalhava até tarde. Ouvíamos música, imensa música, ela pintava, linha a linha, quadrado após quadrado, eu desenhava-a. Outra linha, outro quadrado... eu desenhava-a. É por isso que em muitos desenhos ela está sentada a trabalhar, rodeada de cavaletes, embrulhada em xailes. Em pleno trabalho, em plena concentração. Uma grande calma à nossa volta (...). Tudo isso se inscreve nos desenhos. A cadeira de verga e a manta portuguesa às riscas, a gata Mimi adormecida, os tamboretes, os objectos espalhados em cima da mesa – o silêncio e, nos brancos, talvez a música” . Vieira não posa, é surpreendida, absorta no seu trabalho, envolvida no mistério que tanto seduz Arpad. Em 1939, o casal parte de Paris fugindo da guerra e instala-se em Portugal durante um ano, partindo para o Brasil em 1940 onde permanecerá até 1947. O exílio marcou de forma clara a pintura de Arpad Szenes, que se tornou mais íntima e familiar e onde os objectos proliferam num universo fechado. Retoma a figuração (paisagens, retratos de Maria Helena) mas também alimenta a sua investigação plástica em ilustrações de obras literárias, actividade que se revelou particularmente adaptada à sua sensibilidade. Arpad Szenes considerou este período como uma reconstrução: “A guerra provocou em mim uma grande ruptura. No Brasil empreendi uma reconstrução. Recomecei a acreditar no homem, no mundo... talvez na vida”. A estadia no Brasil terá sido uma etapa de aprofundamento do seu trabalho que, apesar de diferente, não deixou de assumir uma continuidade na pesquisa pictórica. Depois da experiência da guerra e do regresso, as formas tendem a aligeirar-se, as cores a desvanecer. A sua pintura toma um novo sentido que se pode associar a uma certa libertação ou reconstrução e corresponde a uma verdadeira passagem para uma ordem de sensibilidade. Nesta reedificação, a geometria impõe-se, as formas ganham liberdade e as cores sugestão. Os detalhes vão desaparecendo, a estrutura aligeira-se, os temas e os traços característicos do desenho dão lugar a uma evocação, a uma espécie de suspensão temporal. Deslizando do perceptível ao sensível e modificando o sentido para um contexto mais abstracto, Arpad Szenes concentra-se nas paisagens imaginadas, nas sensações de luz e na exploração da atmosfera. Os anos 60-80 são anos de intensa produção em que a organização lumínica e rítmica rege a sua pintura, lentamente elaborada em longos formatos horizontais ou verticais que revelam uma delicadeza espacial sugerida pela arte japonesa. Esta “paisagens imaginadas” evocam a ideia de espaço infinito onde se esboçam movimentos estratificados ou ondulações sucessivas. A imensidão e a amplitude espacial tão bem expressas nos seus formatos preferidos, foram igualmente transpostas para obras de reduzidas dimensões. Esses desenhos, guaches ou óleos conseguem, paradoxalmente, invocar o espaço sem limites. A cor contribui de maneira decisiva para o espaço espiritual e a luminosidade que as suas pinturas evocam. O branco, com as suas variações de cinzentos, rosas, ocres, azuis e amarelos em fundos ou em sobreposições suaves, e quase imaculados, concentram luz e transparência. A obra de Arpad Szenes foi várias vezes referida como silenciosa, evocativa e por vezes evasiva. Obedecendo ao seu ritmo interior, uma ressonância musical pontuada por silêncios atravessa esta pintura desconcertante. Os títulos têm valor de sugestão. Alusivos a sítios ou espaços, resumem sobretudo sensações de lugares visitados num tempo indeterminado, de uma cor particular retida, de uma emoção apreendida. A pesquisa paciente e solitária deste pintor notável que cresce em depuramento e despojamento deve ser encarada como uma visão do mundo extremamente subtil. Voluntariamente retirado para segundo plano em função de Vieira da Silva, Arpad Szenes não deixa de ser uma referência importante na arte do seu tempo. Apesar do percurso marginal, da modéstia e discrição que o caracterizaram, Arpad Szenes não ignorou as vias contemporâneas da cultura. Foi por opção e temperamento que se concentrou numa abstracção interiorizada. No entanto, “a sua obra, pela importância e pela sua finíssima qualidade, só vagarosamente pode ser entendida.” É este ritmo próprio de uma linguagem pictórica que esta exposição nos sugere.

Marina Bairrão Ruivo

"


facebook instagram Drawing Room Store
FONSECA MACEDO - ARTE CONTEMPORÂNEA | 2017