«Bicéfalos» ◄ Voltar

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Tomaz Vieira, «homem da ilha», prossegue o seu trabalho na paz onde vive e onde, do centro da nossa devastação, mal julgamos possível um imaginário assim, na torturada representação dos sonhos, dos fantasmas, dos medos e das próprias esperanças sempre restantes. A sensibilidade insular está nele, aparece à flor da pele, de mistura com os sinais de várias aculturações, na América e na Europa, o betão racional rodeado de água por todos os lados, os homens cães que não sabemos se falam se uivam à lua, os retratos envoltos em ingénuas narrativas, as bibliotecas submersas, os congros, as cenas da violência e da posse sobre a água, rios e lagos voltando cada vez mais, submergindo o mundo - ou a ilha, quem sabe. Mas a ilha é símbolo do mundo, nela se mudam as casas à medida que o mar de sangue começa a engolir as praias brancas, as colunas e destroços urbanos, as fotografias (conservadas longamente) dos imigrantes petrificados do outro lado do Atlântico, sensualidade perdida e achada, letrismo rigoroso outrora, o alfabeto da vida recoberto de paisagens, arquipélagos flutuando no espaço, não no oceano, legenda de Kubrick para depois de Júpiter. Os astros movem as ilhas, devagar, quase sem se dar por isso, mas o céu que Tomaz contempla (e salpica de água da lagoa e de gaivotas sem destino) não é o mesmo que contemplam as musas do fim gelado da Argentina, nem o que foi emalado e atado com cordas, anunciação de todas as partidas, alegria sulcada de algumas chegadas. Excerto do texto do Professor e Pintor Rocha de Sousa, publicado no catálogo/livro «Bicéfalos», de Tomaz Vieira.

Rocha de Sousa

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FONSECA MACEDO - ARTE CONTEMPORÂNEA | 2017