Caligrafias ◄ Voltar

"Conheci Victor Almeida no atelier de Pintura da Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto. Estávamos em 1998 e, como todas as coisas importantes da vida, o acaso fez com que viéssemos a pensar juntos o que é isso de pintura. E aí falávamos da vida e do modo como olhamos o mundo. Às vezes, eram longas as conversas frente ao espaço quase vazio da tela, outras vezes, breves os encontros, mas nem por isso menos valiosos de significações. Foi-se construindo um lugar de entendimento e de respeito tal, que o silêncio envolvente de uma pausa assumia repercussões de uma eloquência que acabaria por vir a ser cultivada como espaço de contemplação. Os objectos que então se construíam eram cuidadosamente pensados a partir de estruturas que evocavam, primeiramente, campos de observação referentes à geometria Euclidiana e ainda da tradição racional de Arnheim, no que respeita à definição de campo visual. A evocação da obra dos anos 70 e 80 de Agnès Martin era legítima. Depois, desenvolve-se uma escrita, ela própria desencadeada no pensamento sobre si própria: a pintura como conceito de discurso e de referência ao intrinsecamente essencial aos seus meios. Se repararmos nos instrumentos que o pintor utiliza para evocar o seu pensamento, do plano da textura da tela aos elementos que lhe servem de suporte, da escolha dos pigmentos ao modo como eles se desenham em obediência metódica e reflectida nessa rede ou teia de articulações de sinais, somos levados a descobrir, silenciosamente, um universo quase monocromático, onde o branco comporta a pureza da cor, atribuindo novas qualidades de vibração ao espaço do olhar. Assim, não são o rosa-cádmio, o azul-cobalto ou ultramarino as cores que vemos de uma desatenção que previamente estabelecemos como pontos de chegada. Deveremos ver antes o processo de construção do objecto de paixão, do segredo que se cultiva em silêncio, da descoberta de um mistério por desvendar e que, no momento da exposição presente, se partilha. O que vemos são lugares casualmente planos. A pintura é uma ilusão. Por isso ela é tão verdadeira. Mas existe uma dimensão em cada superfície ou extensão de espaços tão real como um pequeno gesto da mão ou um sinal de movimento de um braço que deixou repetidamente visível uma intenção que nos propomos conhecer. Nós não fazemos senão tentar interpretar os nossos sonhos e as nossas aspirações e, por isso, nos inconformamos sempre com algo que não conseguimos compreender. Não podemos gostar daquilo que não conhecemos, como diria Luís de Camões, por isso se torna tão exigente, e hoje cada vez mais, a manipulação da informação e o conhecimento da pintura como um dos mais criativos campos da produção cultural contemporânea. Victor Almeida tem, como se vê, todo o tempo do mundo para meditar e construir sobre si mesmo, na sua muito querida Ilha de S. Miguel, um discurso legítimo, tão verdadeiro e sério quanto o sentimento que lhe conhecemos desde o primeiro contacto com a sua forte personalidade. Tão verdadeira como despojada de quaisquer ornamentos ou sinais flutuantes de adereços estilísticos, a sua pintura constitui-se, assim, um lugar próprio de evocações de um tempo de olhar em redor que passou a ser de construção interior, de rigor e dúvida sobre o destino da escrita e sua eficácia. Na verdade, o destino da pintura. Privilegiando o silêncio pela sua eloquência, os objectos que agora contemplamos são, na melhor acepção do termo, espaços de geometrias, herdadas de um imaginário ancestral e convividas no quotidiano de uma civilização ocidental, que é a nossa história de um tempo e de um lugar bem definidos entre continentes e latitudes que a ciência define, objectos ainda de uma rara e verdadeira lucidez sobre o mundo. Porto, 19 de Dezembro de 2000 Francisco Laranjo"


facebook
FONSECA MACEDO - ARTE CONTEMPORÂNEA | 2017