Colecção Sem Titulo | Arvorar ◄ Voltar

"

O BATER DE ASAS DE UMA BORBOLETA EM TÓQUIO PODE FAZER CHOVER NO CENTRAL PARK DE NOVA IORQUE. E O PROBLEMA É QUE A SEQUÊNCIA DE ACONTECIMENTOS NUNCA SE REPETE: DA PRÓXIMA VEZ QUE A BORBOLETA BATER AS ASAS, MUITOS OUTROS FACTORES QUE TAMBÉM INFLUENCIAM O TEMPO TERÃO MUDADO. Stephen Hawking , O Universo numa casca de noz. A actual exposição é constituída por dois corpos de trabalho executados entre 2002 e 2004: a Colecção Sem Título e Arvorar. Os dois corpos de trabalho interagem e dialogam um com o outro. A exposição resulta de um movimento tensional entre uma estrutura aberta e uma estrutura fechada. São trabalhos de pintura que sintetizam em si, da forma possível, a passagem do tempo, reflectindo simultaneamente a fragilidade da nossa percepção. A Colecção Sem Título tem uma estrutura narrativa e impõe uma leitura sequencial. Apresenta vários momentos de um todo cujos limites são apenas sugeridos pelo título. É uma colecção: cada elemento é um objecto único, precioso em si, mas, simultaneamente, valorizado pelo todo. A sua concepção implica um movimento desmultiplicador, de desdobramento, de multiplicidade temporal. Formalmente é um conjunto aberto. Arvorar é um objecto sincrónico. É uma peça múltipla em que todos os elementos concorrem para a objectivação da leitura. A sua concepção implica um movimento de implosão. Formalmente, é uma peça contida dentro dos seus limites. Tem uma estrutura convergente. É um único momento no tempo. Ambos os corpos de trabalho resultam de uma reflexão sobre a pintura. Ensaiam novas possibilidades para a pintura, dentro do universo do meu trabalho, recorrendo à formalização de uma dimensão desde sempre a ela associada – uma dimensão artesanal. Ambos põem em relevo a pintura como artefacto. São trabalhos exaustivos em dois níveis de execução, a saber: i) na preparação das superfícies que recebem a película de tinta; ii) na imposição de um virtuosismo do olhar na percepção de variações cromáticas e tonais – percepcionam-se e reproduzem-se diferenças mínimas de cor e tonalidade, objectivando-se, simultaneamente, eternas mutações nas interacções cor-luz. O recurso a uma estratégia faça-você-mesmo é frequente através do registo de marcas, referências e quantificações relativas de tintas utilizadas – estratégia por vezes divulgada, como na exposição As Minhas Casas Voadoras, realizada em 2002. A Colecção Sem Título é um corpo de trabalho expansivo, eminentemente fluido e emotivo, com uma forte presença física; é constituído por doze pinturas, com dimensões de 80X80X4.5 cm cada, executadas em esmalte aquoso e sintético sobre chapa de alumínio fixada numa estrutura de madeira. As doze pinturas correspondem a doze fragmentos de uma série de fotografias/retratos que descrevem doze momentos de um conjunto pré- -seleccionado de movimentos de rotação, elevação e inclinação, para baixo e para dentro, da cabeça de um sujeito retratado. Os fragmentos das fotografias foram ampliados por processo digital e reproduzidos em pintura, sobre alumínio, com tinta de esmalte aquoso. Esta superfície de pintura cria um fundo, em trama, como uma pele, para intervenções de natureza gestual, com tinta de esmalte sintético, associadas à ideia de tacto. A cada fragmento do retrato, corpo, corresponderá, ao toque, uma determinada temperatura que se expressa na cor das manchas de esmalte sintético a ele sobrepostas; a cada fragmento corresponderá também uma determinada sensibilização ao tacto, que se expressa na evolução formal das manchas a esse fragmento sobrepostas. De um modo sucinto, a Colecção Sem Título é a descrição visual da sensação provocada pelo toque de uma mão sobre um corpo próximo, muito próximo, à proximidade da respiração – em que pouco mais do que a própria temperatura do corpo tocado permanece visível. Cada pintura desta colecção é identificada por um número. No total são doze números, doze fragmentos de um retrato não verbalizável, invisível tornado visível. Arvorar - plantar árvores; levantar ao alto, na vertical ou perpendicularmente ao chão, como uma árvore; pôr em lugar alto, em sítio bem visível; fazer levantar-se contra; (…); colocar ao alto um mastro, um mastaréu, um remo… Arvorar é um corpo de trabalho mais contido. Afirma-se no silêncio e na candura. É uma única peça constituída por dez elementos: sete pinturas de 80X45 cm de face, com profundidades variáveis entre os 9 e os 18 cm, executadas em primário para madeiras e esmalte oleoso sobre madeira, um tubo de plástico transparente, um prisma quadrangular em plexiglas, com 220X40X40 cm e uma árvore. Os suportes das sete pinturas foram preparados com goma laca, massa de ferro, betume oleoso e primário para madeiras de modo a criar uma superfície uniforme, lisa, para receber a tinta. A tinta aplicada é de esmalte oleoso branco, de diferentes referências e marcas existentes no mercado. O processo de execução é remetido para primeiro plano através da sua revelação, na peça, em três fases demarcadas: a madeira do suporte; o primário para aplicação da tinta; e por fim, a última fase, a aplicação da tinta de esmalte. Arvorar tem uma natureza essencialmente contemplativa. A observação do momento requer algum tempo. Há variações dificilmente perceptíveis na cor e tonalidade das tintas utilizadas. Essas variações resultam das variações de marcas e referências de tintas aplicadas e expressam-se nos brilhos e temperaturas da cor das manchas de esmalte sintético. Há uma dimensão lúdica em Arvorar, associada aos jogos do olhar, que se objectiva mais visivelmente na colocação da película de tinta de esmalte nos sete suportes. Essa colocação é determinada pelo ritmo criado pelos afastamentos das superfícies relativamente à parede – esse ritmo obedece a uma lógica matemática de progressão de números primos e procura reforçar os efeitos formais das variações de temperatura da cor ao nível da percepção das formas. Como um todo, Arvorar é uma peça metafórica; a figura destaca-se do seu fundo fosco e cresce para o alto, explicitando as duas dimensões da metáfora contida na peça. Entre a Colecção Sem Título e Arvorar circula um feixe de energia que determina a decorrência de uma para a outra. O circuito dessa energia estrutura-se na pintura – certamente, a borboleta baterá as asas uma próxima vez; a incerteza reside na iminência e subsequência do seu voo. Nada é sempre igual; Arvorar é diferente todos os dias e, da mesma forma que a Colecção Sem Título, é a antecipação possível de futuros projectos de pintura.

PDL, 2004-01-29

Maria José Cavaco

"


facebook instagram artsy Drawing Room Store
FONSECA MACEDO - ARTE CONTEMPORÂNEA | 2017