Da intensidade da existência ◄ Voltar

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Perante o nosso olhar desenrola-se, como se de uma película cinematográfica se tratasse, uma narrativa sobre a condição do ser-se humano. Nesta, não existe paz, harmonia, nem a ilusão de uma utopia perdida. São relatos da distopia ou da alotopia que marcam estes seres. Tentamos não lhes dar a importância devida pois, como espelhos que são, fazem com que todo o edifício cartesiano arduamente construído ( sobre pés de barro) entre em ruínas. Freaks do submundo, do subterrâneo, saem do esgoto do nosso interior para nos confrontar. Torna-se definitivamente mais fácil pensar que são meros bonecos, encenados ou ficcionados num teatro da crueldade e que nada têm a ver com a realidade do nosso mundo. É perigoso atender à sua verdadeira profundidade pois esta acarreta o risco de entrarmos no abismo em que muitos de nós, fracos que somos, podemos nunca retornar. É uma tremenda ilusão acharmos que deles temos controle. Nem a própria artista o tem. Como Frankenstein são criaturas que, uma vez criadas, ganham uma autonomia própria e jogam connosco de uma forma perversa. Autênticos cyborgs, numa mistura pós-humana com a máquina e o animal, são como espreitadelas atrás da porta do quarto dos fundos. Aquele que todos temos medo de entrar, escuro que é e revelador dos segredos mais incómodos. Quem tiver coragem de os encarar irá descobrir no absurdo kafkiano da sua linguagem, o riso sarcástico de toda a nossa humana comédia. No confronto, descobriremos a luz ao fundo do túnel numa época em que tudo se pretende limpo, clínico, pois toda a seu grotesca e kitsch subversão, afirmativa da diferença e da vida com intensidade, obriga-nos a sair da existência apolínea e mergulhar na noite dionisíaca. O seu devir-louco, devir-outro, a sua poética potência do horror, do abjecto, é a única saída da nossa patética rotina do atonal, do nosso nihilismo cinzentista .Com toda a sua força, Sara Maia dá-nos uma lição: enchamo-nos de coragem e vivamos os nossos monstros. Talvez, um dia, já não tenhamos medo deles.

Carla de Utra Mendes

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FONSECA MACEDO - ARTE CONTEMPORÂNEA | 2017