De onde vêm as imagens ? ◄ Voltar

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Três pintores da mesma geração, nascidos entre 1959 e 1965, coincidem num mesmo espaço e numa mesma galeria, com três tipos de trabalhos bem diferentes, bem contrastantes. Assim a exposição não é apenas uma soma destas três obras, mas uma interacção que, pelo confronto entre elas, acaba por nos colocar problemas diversos daqueles que cada uma levanta por si mesma, desfazendo o efeito de inventário que tantas vezes têm as exposições colectivas. Vistas em grande proximidade as pinturas e colagens de Urbano, Ana Vidigal e Miguel Telles da Gama conduziram-me imediatamente à interrogação que dá título a este texto: De onde vêm as imagens? Nestas obras há pintura e há imagem, e mais, uma e outra mutuamente se implicam e desafiam, no seu contraste na sua fusão ou difusão, elas implicam três registos diferentes e complementares da imagem e do seu surgir na pintura. Caso a caso, deparamos... - Com Urbano, uma matéria que parece funcionar como suporte ou como preparo da imagem, enquanto esta é algo que se apõe ou acrescenta, à maneira de um desenho sobre uma superfície incerta e rugosa como um muro, daí o contraponto e, em certos casos, a sugestão do informe, da mancha organizada que se trans-forma em imagem segundo a antiga receita que Leonardo sublinhou, mas que vem dos tempos inomoriais em que os homens sabiam descobrir formas no tremeluzir de uma caverna mal iluminada - Com Ana Vidigal o excesso organizado das imagens alheias transformadas em imagens próprias, no processo devorador da colagem, com folhas avulso, lustros, capas de livros, desenhos ou “scribles” infantis, tudo isto se junta, se doma e se organiza como num jogo, onde algumas figuras de grande porte se impõem como que a unificá-lo, gerando um espaço onde o nosso olhar brinca também, ao simular ou reinventar a construção de cada quadro - Com Miguel Telles da Gama as imagens também são preexistentes, desenhadas, inventadas, citadas, modificadas, conforme os casos, tempos e culturas materiais. Modas e figuras diferentes convergem num mesmo espaço que disputam à matéria da pintura que o estrutura, o organiza e lhe dá uma unidade ou a ilusão dela, jogando sempre no confronto entre forma e figura. A presença da matéria num caso, o formigueiro das coisas, das pequenas coisas encontradas, no outro, e ainda a contaminação das imagens que vêm de todo o lado, apresentam-nos o campo da pintura como um território aberto ao possível através do fazer compulsivo de três pintores que, no avançar de cada obra, vão interrogando e respondendo o seu fazer entre imagem e matéria, entre sentido e não sentido, em movimentos que se podem ler como de explosão (Urbano) e de vias para a implosão (Ana e Miguel) assim, no seu contraste limitado ao espaço e tempo, estes trabalhos longe de se anularem, crescem e manifestam-se como presenças! como contrates! como interrogações! Olhando para a exposição enquanto conjunto organizado podemos entendê-la como um movimento que brota da matéria imemorial, confrontado com imagens que procedem de um vasto “corpus” disponível, mas inventado e inventável, manifestando embora uma pulsão de regresso a um magma inicial, desta maneira se completa um circuito imaginário que nasce do trânsito entre estas tão diferentes obras. José Luís Porfírio

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FONSECA MACEDO - ARTE CONTEMPORÂNEA | 2017