De que se trata quando se diz galeria? ◄ Voltar

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Nestor de Sousa

Certamente de um espaço dimensionado e equipado tecnicamente para a função expositiva de objectos de civilização, que são as obras de arte. Assim, ela é suporte do espectáculo visual que, antes de mais, toda a exposição artística há-de ou deverá ser. Por isso, galeria é também os que, por competência própria para aquela função, são capazes de realizar o que há-de ser visto e não apenas olhado de passagem ou como motivo ocasional de reunião mundana, depois mais ou menos divulgada mediaticamente e sem mais consequências. Mas os ditos objectos de civilização são actos criativos de alguém - e nisto se distinguem de prendas domésticas ou de vagares habilidosos - , informados e informativos de um tempo histórico, na verdade das suas direcções estéticas e semânticas definíveis física e ideologicamente como resultantes de múltiplas operações. Cabe, então, no conceito de galeria, como elemento indissociável das componentes enunciadas, o sentido de projecto de utilidade social. Por ele fica obrigada ao acerto de elenco artístico com que, sem equívocos de escolha, teça regularidade rítmica de coerentes exigências programáticas. Nela há lugar para a legitimidade do negócio, porque se a obra artística tem como finalidade primeira ser fruída colectiva ou privadamente, tal não exclui que nas sociedades contemporâneas ela se afirme objecto transacionável por um qualquer modo. Dir-se-á então que, como outro produto, considerando embora a sua especificidade, ela entra no esquema de compra-venda. Tornado objecto de troca, sem prejuízo de o ser de civilização, tem espaço de mercado próprio, com intervenção correspondente, sobre os direitos de autor, do respectivo negociante. Mais uma vez se chega ao conceito de galeria e daquele que, organizadamente, se define vendedor. A questão há-de situar-se, no entanto, com protagonismo de outra intervenção ou orientação, que funcione como avalizador-defensor de valores estético-artísticos contra eventuais tendências socio-culturalmente negativas por parte de negociantes esquecidos, ignorantes ou até mistificadores do que é ou deve ser serviço público. Chegamos agora ao papel do historiador da arte ou crítico, actuando, por desejável consciência sociológica, na prevenção contra o negócio pelo negócio e a facturação ideológica de capelanias. Um e outra, por inadequada selecção de artistas, inapetência de novas emoções visuais, cómoda e acanhada postura restritiva de natureza geográfica, sem mais confronto, transformam o diálogo entre arte e público numa ambiguidade perversa, de que resulta o malogro da circulação artística. A cidade conhece hoje a novidade de uma galeria, de seu nome Fonseca Macedo, com projecto arquitectural e de aparelhamento da responsabilidade de Rui Almeida. Iniciativa privada, que nenhum poder público - local ou regional - quis antes assumir com a qualidade de utência possível de reconhecer, também por isso melhor voto não posso dirigir-lhe senão que, distinguindo passado-presente, cumpra o agora - futuro daqueles diálogo e circulação. A exposição inaugural parte hoje - e nós com ela - para esses atractivos mentais e sensitivos. Por via de Urbano, que teve o seu primeiro público em Ponta Delgada e na Ilha. Entenda-se a de Antero, que António Nobre, em momento de acentuado "spleen" e muito depois de consumada a tragédia, quis visitar e nela beber água do botaréu . À abundante mitografia anteriana o pintor acrescentou telas de uma exposição individual que, em começos de 1993, teve presença em Lisboa, antes de cumprir outros itineários. Foi re-interpretação feita experiência subjectivada, rica de cromatismo em diluição das linhas da figuração pelas manchas. Uma década atrás iniciara o seu regular percurso expositivo. Já com passagens pela capital, embarcaria para mais ampla geografia até Macau e teve estudo de gravura na "Slade School of Fine Art" de Londres. Foi tempo, então, de outras incursões em mostras colectivas na Gallery A" e " Curwen Gallery", depois alongada à "Wolsey Art Gallery" de Ipswich. Ainda o século se não finara, a Galeria 111 acolheu-lhe em Lisboa e no Porto "Do Mundo e do Ser" ( 1997 e 1998). Mais recentemente e com êxito deu-lhe visibilidade na A.R.C.O. de Madrid. Aqui, o es precioso de espectadora anónima afirma-se entendimento gratificante. Urbano, pintor nascido do mar, volta agora a Ponta Delgada trazendo, simbolicamente, "Os Primeiros Frutos". Os seus e os da nova galeria, que tiveram série estreada na 111 do Porto em fins de Maio e êxito assinalado pelo público. Com eles propõe um discurso pictural em Jardim de Criação, de outro modo visitado. Não recusa a memória do que já pôde ser e é possível recuperar com actualidade. A intenção vai de par com o empenho, na associação desejável de construir com nível idêntico uma imagética figurativa, assumidamente ingénua nas formas e desviada de atitude ilusionista. E nisto, conserva o tempo que baste à presença ou, dito de outro modo, sem preconceito de efémera alterabilidade, por razões de etiqueta estética ou mais recente modismo. Na superfície de cada quadro ou no registo que cada um constitui, mesmo que organizado em díptico, há combinações matéricas que ultrapassam a mera função de suporte, para se afirmarem, elas também, nas texturas alcançadas, elementos essenciais de composição. O movimento da mão solta-se da mancha informal, tornada tonalidades terrosas, acobreadas ou já esbranquiçadas, para servir linearidades esguias e flexíveis de perfis apenas apontados, o quanto baste, ao reconhecimento icónico plasmado de raízes filamentosas, galhos que florescem e árvores copadas de frutos maduros. Primícias da criação antes da criatura ou despertar de Primavera de um tempo primordial, oferecem-se sem lembrança do pecado mítico a "pommones" que, dos frutos colhidos e abraçados em seus regaços, sob os seios desnudos, ficarão prenhes de outros frutos, fontes de vida. Das formas pintadas escorrem lembranças de fresco romano e, pelo mesmo discurso de transvanguarda, também de um universo feminino, que teve intérprete no escultor Canto da Maia, mas despojando-o de passadas elegâncias plásticas. São dizeres outros de um reportório pessoal, que transporta múltiplas interrogações por via do que cada um puder ver de vida imaginada nas suas imagens.

Nestor de Sousa

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FONSECA MACEDO - ARTE CONTEMPORÂNEA | 2017