DEAR PAINTER ◄ Voltar

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Não me parece que seja possível contornar a questão da gravidade quando se fala de pintura, porque ela se constrói no revestir de uma superfície: a aderência da camada de tinta é possível devido à força da gravidade. Mas o movimento com que a película é espalhada interfere ocasionalmente no modo como a atracção é exercida. Estas dissensões pontuais à tendência dominante do curso da tinta prenunciam a natureza tensiva da pintura.

Tapar com cor é um exercício revelador. O que a película de tinta revela é a intensidade de luz que se desejou fazer reflectir. No sentido em que é pré-desejada, a pintura é concebida em antecipação: há uma premeditação, consequente com um desejo – de luz (em concreto, mas também em acepção figurada).

O acto de justapor fluxos de luz expõe um problema: a informação de nexos. Uma superfície que irradia luz de forma diferenciada é uma textura repleta de interstícios. Estes hiatos – em que tudo é possível – são informados por vínculos mentais. De uma micro-escala para uma macro-escala, focos referenciais desencadeiam o estabelecimento de conexões, através da sucção de fluxos de sentidos para os espaços (nocionais) entre-matéria. Alguma fase deste processo de conceitualização poderá induzir ao reconhecimento de uma figuração identificável com a realidade visual em maior ou menor grau, mas a pintura constrói-se numa progressão de escalas sem uma hierarquia valorativa a nível conceitual. A matéria articula-se através da projecção do pensamento, a diversas escalas de igual valor. Configura-se assim a singularidade da pintura como médio, mas também, e não menos importante, a sua natureza conceptual.

BRAVOS

Aqui deduzidas através da interpretação de aspectos operativos, as propriedades da pintura identificadas – tensão, premeditação e conceitualização –, atravessam o trabalho reunido sob a denominação “Dear Painter” – nome que decorre literalmente da tradução para a língua inglesa da primeira expressão do título da série “Lieber Maler, male mir” (1981), de Martin Kippenberger (1953-1997) (não havendo nas pinturas expostas alguma citação, a qualquer outro nível, da série de Kippenberger).

“Dear Painter”, quando aposto acima de um texto, sugere uma escrita, dirigida, em forma de carta – sobre a natureza da pintura, no caso; quando destacado de qualquer escrita, sugere uma exclamação imbuída de uma certa ironia (curiosamente, esta conotação parece manter-se quando a expressão é consequência da observação de um objecto) – reacção a algum esforço vão, talvez. Quando pensado na sua tradução para a língua portuguesa – Querido/a Pintor/a – adquire um tom afectuoso. A manifestação de um afecto expõe um obstinado alento – o de refrear uma, em última instância, inescapável solidão.

Os núcleos de trabalho são três. O primeiro, Are we a pair, integra duas peças cujo referente é uma figura humana que é aqui representada à escala humana; o segundo, Não sei onde estou (por favor fica comigo), é constituído por dois objectos (e pelo espaço que os separa) que decorrem da imagem de uma possibilidade tida como infactível (uma montanha com o cume apenas entrevisto, suspenso no ar) e, por isso mesmo, associada neste díptico à qualidade ilusória da representação pictórica; finalmente, Planta para um espaço – cobertura. Esc.1:30 é uma pintura observada num plano horizontal, que se reporta a uma passagem do Sermão de Santa Teresa (A Porta do Céu), de Padre António Vieira, articulando-a, por confronto, a duas imagens (a de uma paisagem e a de um fragmento dos baixos-relevos de Ashurbanipal, Ninive, de cerca de 645 A.C.) que, representadas na pintura, referenciam um espaço visto de cima, do céu, ou seja, em planta.

Somos bravos, de facto.

 para a minha mãe

 

MJC, Março de 2011

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