Desconfianças e outras abundâncias com vista à glória ◄ Voltar

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Tenho amigos artistas que fogem com o rabo à seringa a qualquer doméstica intervenção do domínio filosófico ou literário às suas idas e vindas ao famigerado mundo da arte. Pensam, ou julgam que pensam, com as mãos, com os olhos, ou com o corpo inteiro, incluindo as patas que já temos e aquelas que advêm do precisarmos mais do que as que temos. Dir-se-ia que esta ingénua animalidade é possível, com uma velha candura modernista e com um horror declarado (ai credo!) aos espectros filosóficos, e também comerciais, que andam à volta das obras de arte (e do restante mundo) pondo-lhe irritantes etiquetas. A teoria é como a mioleira – é uma mixórdia cinzenta. Eu compreendo essa genuína alergia aos «estrangeiros das letras», amantes bem intencionados de obras de arte ou mercenários com aspecto de mercenário mesmo, que escarrapacham sentidos de difícil acesso ao que parecia ser uma mensagem de corpo e alma ao pestanejar vulnerável do freguês de ocasião. Acontece que eu sou um dos tais fabricantes de delírios desse tipo. Escrevo para afinar o olho. Ou para desfocá-lo. Ou para intoxicar de um modo o mais intenso possível o que julgo que passa por aparências. Já as supostas essências são para outro tipo de visões, e não sou grande frequentador dessas casas de pasto de difícil acesso. É verdade, sempre escrevi, e como todos os escritores aldrabo, sobretudo naquela cozinha subterrânea de citações em que fazemos passar por um conhecimento certo e seguro as deambulações dos nossos limitados conhecimentos. Ofuscar com uma catadupa de referências é fácil, e tenho uma tendência quase inata para o fazer. O que só prova «esta» artificialidade e superficialidade. Mas gosto da manipulação insensata do Verbo. Ao dizer isto, estou a mais um passo de levar o leitor no engodo, porque lhe parecerei assaz sincero. É, tu aí, que me lês, usa e abusa já das tuas reticências mentais! Mas, apesar de incontinentes reticências, acabo por simpatizar com a conversa dos artistas que escrevem, porque a sua escrita é uma resistência militante a etiquetas alheias. Não que sejam melhores do que os outros, mas esforçaram-se ou tiveram o dom de nos proporcionar uma conversa que nalguns casos até pode ser enriquecedora. Ao invés desconfio das obras de arte que apostam num só sentido, forte ou fraco, como num cavalo de corrida. São um pouco como os cartoons políticos, passado o contexto vai-se a eficácia. Numa perspectiva um pouco distinta admito que deliro com as selvas temáticas. Um tema não é uma mensagem. E os temas são os portais que dão acesso a glórias inesperadas. Há duas «publicações» que condensam a maior parte dos temas de que se serviram os artistas do ocidente – a Bíblia e as Metamorfoses de Ovídio. Mesmo outras obras que serviram de maroto pretexto para o manejo de pincéis e escopros derivaram em grande parte destas duas sumas. O texto ovidiano, pouco canónico e literariamente mal polido, não levanta à partida controversas questões de fundo. Já a Bíblia, aglomerado de livros que se entranham uns nos outros, tem uma afirmação (para além de múltiplas subtilezas teológicas que derivam da diversidade dos autores e das épocas em que escreveram) que é incontornável para qualquer artista – essa afirmação faz parte da lei mosaica e é tão simples como saltar à corda – «Não fabricarás ídolos!» . O que é o mesmo que dizer, é pá, não te metas a fazer imagens se não ainda chega aí um gajo que é capaz de adorá-la em vez de dirigir o seu pensamento para o que interessa – o Deus Único e o seu Décalogo!!! Mmmmm!... Isto dá que pensar! Constato imediatamente duas coisas. A primeira constatação é a de que as imagens sempre foram instrumentos ou formas de poder. Não daquele género de poder que tem como única e caricata missão deitar governos abaixo ou pôr amigos a ganhar mais uns tostões numa instituição. Não senhor! Este poder merece a desconfiança do próprio Demiurgo. De facto, até tempos não muito distantes, a arte criava «rivais» de Deus a que pessoas se prostravam e pelos quais se sacrificavam vidas de diversas formas. Os próprios cristãos sucumbiram à tentação iconófila, figurando não só o Demiurgo e a sua Encarnação, Jesus, como delegando competências menores numa série de santos e santinhas. O resultado é (foi?) a adoração de ícones, estatuetas, etc. E o mais perturbante é que essas imagens estão corriqueiramente associadas a milagres. Basta atravessar a rua e conversarmos com um passeante que tais testemunhos nos chegarão às orelhas. Mas, meus amigos, não se ponham a blasfemar tais ídolos, que podem ir de uma obscura pedra, a um temível totem ou à Nossa Senhora de Fátima. Muitos desses artefactos destinam-se em grande parte a angariar crenças e vontades em prol do bem e têm, na maior parte das vezes, atestados poderes curativos! A segunda constatação, igualmente paradoxal, é a de que a Bíblia é o «corpus» mais ilustrado de sempre, ainda que tal ventura tenha sofrido alguma contestação por parte das ortodoxias quer judaicas quer cristãs, abrindo intermitentemente as chamadas crises iconoclastas. Essas crises nunca se fecham definitivamente, e as razões da arte que hoje se faz derivam, muitas vezes sem o saberem, nas ondas destas inacabadas controvérsias. Mesmo dando o braço a torcer e a razão todinha à prescrição do Decálogo, que dá acesso a uma experiência mais pura e menos contaminada do sagrado, eu sou um entusiasta do que anda para aí em imagem, quer nos esplendorosos códices que guarda a British Library (só para dar um exemplo... muitíssimo vasto!) quer na forma como as pessoas se mexem ou andam «produzidas» na rua. Apesar das minhas desconfianças, quer das tricas teóricas quer das aparências das coisas, ando à caça de algo que se chama Doxa em grego e em hebraico Kavod. A palavra Doxa surge, meio desgraçada, mas plenamente justificada, no Poema de Parménides, como caminho alternativo ao caminho do É (do Ser. do Imutável, etc.). Esse poema é o antepassado mais venerável de toda a filosofia, por isso... respeitinho! É a «opinião», o que temos à mão de semear. É a enunciação e a colecção das coisas na melhor forma possível. Para mim a Doxa é o que é bom, o que «é fixe!», o que vale mesmo a pena, seja uma tradição ou uma inovação. É a maravilha das coisas acumuladas pelo sub-demiurgo chamado homem (numa versão muito seleccionada). Mas também é Kavod, o esplendor divino (que inclui o «mundo»). Quando um grupo de sábios, chamados os Setenta, verteu pela primeira vez o Antigo Testamento para um idioma, o grego, traduziu este termo por Doxa. A tradução pode ter traído o significado mais vasto de Kavod, mas a palavra em que foi traduzido também ganhou um suplemento de sentido. De tal forma que os tradutores, desde a versão da Vulgata até hoje, em lugar da original «opinião», usam a palavra «glória», como algo poderoso, luminoso e incontornável. Esta exposição é uma humilde, e quiçá fracassada, demanda da Doxa. Mas as palavras precedentes, com todas as suas bocas de escondidos dentes, são em boa parte o contexto intelectual e emocional que acompanharam a produção destas obras. Em síntese: estas imagens não sonegam os horrores nem as inquietudes, nem as calamidades, nem as injustiças, mas procuram sobretudo, mesmo que isso possa parecer pretensioso, a intensidade da Doxa, que todos os tempos nos oferecem residualmente numa bandeja já agora. Eu apenas procuro não ser ingrato ou malcriado.

Pedro Proença

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FONSECA MACEDO - ARTE CONTEMPORÂNEA | 2017