Entre dois silêncios ◄ Voltar

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A percepção de muita da arte do nosso tempo, estando esta dominada, no plano da sua circulação, e na sua grande parte por mecanismos socio-mediáticos e até político económicos que lhe são exteriores, gera efeitos de espectacularidade e de visibilidade fortíssimos que tendem a excluir todos aqueles que não se querem absorvidos, no plano da sua intervenção, por esses circuitos consagrativos do imediato. Não virá disso nenhum mal ao mundo porque, de uma maneira ou de outra, não é para isso que a arte existe e, como tal, não é por aí que ela profundamente se justifica. O único problema é que, por vezes, tais dispositivos nos afastam de perceber atempadamente certas obras que, fazendo-se a partir da margem, ou ao menos fora desse círculo, têm intensidades e fulgores que nos escapam. Maria Tomás é uma artista cujo trabalho se tem voluntariamente mantido nas margens discretas de uma certa atitude, precisamente a que não procura a exibição clamorosa mas, antes, um espaço próprio de meditação. Essa é a razão, creio eu, que subjaz à sua forma de fazer a sua obra a partir de uma espécie de silêncio e dirigindo-se, curiosamente a uma outra espécie de silêncio. Uma obra entre dois silêncios, portanto. Diria, no que se refere ao primeiro desses silêncios, que o que se busca é mais a raiz de uma atitude, uma forma de olhar e de ver o mundo e as coisas do mundo, uma espécie de reserva natural que se vai criando como espaço próprio e meditativo em que o processo criativo há-de surgir, como fruto dessa mesma abordagem. E, no que respeita ao segundo desses dois silêncios, que aquilo que se procura é comunicar ao espectador da obra uma compreensão do que o silêncio é, no sentido que John Cage deu ao termo, como coisa material, palpável (ou visível). Vejamos então. Creio que Maria Tomás conservou, da sua vivência nas Ilhas dos Açores onde nasceu, uma noção do espaço vasto e intocado, silencioso e grave, que faz fundir ao longe, na ténue linha do imenso horizonte, o mar e o céu numa espécie de fusão de luzes e de cores que a certas horas se tornam indistintas. Essa experiência (até física) do espaço ter-lhe-à proporcionado a sua primeira fonte imaginária e, por isso, o seu trabalho a comunica ora em cintilações de formas que aparecem e quase se cristalizam no ar, como se fossem recortes de densos promontórios que se dão a entrever no meio da neblina, ora são vastos espaços quase abstractos que se prolongam para além de quanto a vista pode chegar a alcançar. Esta coincidência do peso, da massa, da matéria, com a leveza, o imaterial, o etéreo, que se sente nesse espaço ilhéu onde começou por tomar consciência do mundo, e que inevitavelmente transparece depois no seu trabalho, dá aos seus desenhos uma espécie de atmosfera de mistério e de surpresa em que cada elemento figural sobressai não tanto por quanto significa na ordem das coisas como, sobretudo, pelo quanto serve para exprimir precisamente o que permanece na ordem da aparição fantasmática, do misterioso, do inefável. Essa propriedade poética da sua obra não se quer no entanto destinada a fazer a incorporação falsa de um género em que o literário se haveria de sobrepôr ao plástico. Pelo contrário, ela corresponde antes a uma forma de agenciar o que, sendo na sua própria origem de ordem imaginária e plástica, só pela forma plástica se pode convenientemente exprimir enquanto testemunho poético de um universo que começou por ser visual. E se atrás falei da sua experiência pessoal é porque penso que ela ajudará a compreender o quanto, neste trabalho, e apesar da sua modalidade ser muito mais abstracta do que figurativa, o que se enuncia é precisamente da ordem de uma paisagística. Nesse exacto sentido que a palavra ganhou depois das inestimáveis experiências de um Clifford Still ou de um Barnett Newman, como ideia e mesmo como materialização de que qualquer espaço pode ser inscrito de um poder de sugestão, que ganha uma densidade própria e transfiguradora dos seus elementos, sempre que pensado desde o seu início como espaço de inscrição do puro imaginário. No seu processo criativo então, a artista faz intervir uma compreensão alargada do desenho, uma vontade de experimentação e uma compreensão técnica dos seus processos que, conjugando-se entre si, abrem para uma experiência comunicante que transgride o que esperávamos da prática corrente do desenho para ganhar uma autonomia expressiva e comunicante que deve ser tomada pelo que é, mais do que por aquilo que parece. Ou seja, por uma capacidade de entender materialmente o que eu gostaria de chamar “o desenho para além do desenho”, em que constantemente se transgridem as fronteiras disciplinares desta prática para observar, através dela, outras e novas possibilidades comunicantes. A este processo desconstrutivo não é estranha a grande experiência que Maria Tomás foi ganhando no ofício da gravura, justamente porque esse conhecimento opera no seu trabalho de uma forma subtil, quase estrutural, deixando que se vão sobrepondo sucessivas camadas e processos que complexificam não apenas as formas e os fundos como lhes dão uma espécie de texturas e de marcações, diversas entre si, que ao mesmo tempo que deixam que a prática do desenho se manifeste como conquista material e como forma de invenção plástica concreta, as aproximam da noção de mapa e de cartografia. Diria então que os trabalhos de desenho de Maria Tomás ambicionam cartografar uma experiência imaginária, ao mesmo tempo que inscrever no seu domínio plástico uma espécie de dimensão inventiva que o próprio trabalho gera, mantendo-se como espaços abertos a essa invenção e a esse processo. Nisso se podem eles referir próximos de um entendimento material do silêncio, no sentido em que Cage o referiu e experimentou, não tanto numa acepção puramente poética como, sobretudo, na perspectiva de alcançar um espaço outro em que se pode observar o avesso, ainda assim material, das coisas tal como as conhecemos. O segundo silêncio que referi seria assim o espaço material de uma percepção do concreto, do modo como uma forma se constrói e se autonomiza, gerando um processo e uma disciplina própria, quer a um nível formal quer conceptual. Não começando por ser representações de coisas concretas, senão formas abstractas, as obras de Maria Tomás por incorporarem no seu íntimo a definição de um espaço paisagístico — nessa acepção que para trás referi, de construção de um espaço autonomizado que se abre à invenção plástica dos seus próprios elementos como personagens que o habitam —, remetem para um plano metafísico. Assim sendo, tanto nestes desenhos recentes como numa anterior série que se intitulou “Dez desenhos órficos”, aquilo de que se trata é de abrir a prática do desenho para a construção de um espaço imaterial em que se percepciona algo que é da ordem do ainda não visível — tal como nos espaços singulares de um De Chirico, nas silenciosas naturezas mortas de um Morandi ou nas incisões além-representação de um Fontana — mas em que mesmo assim se elabora uma forte compreensão material da prática do desenho. Que serve o propósito de inventar um outro espaço de inscrição imaginária e paisagística de ordem muito abstracta, mas ainda assim memorial, tal como a prática de uma dimensão experimental, livre dos constrangimentos disciplinares, e votada sempre à invenção de uma forma plástica singular e singularizada que vai progredindo no interior de si mesma.

Bernardo Pinto de Almeida

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FONSECA MACEDO - ARTE CONTEMPORÂNEA | 2017