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Sobre O TERCEIRO DIA de Urbano:

entrevista com Lúcia Marques
 
Em plena preparação da mais recente mostra de trabalhos do pintor Urbano para a Galeria Fonseca Macedo, trocámos entre 3 e 20 de Junho um encadeado de perguntas e respostas por email, numa ponte virtual entre Lisboa e Ponta Delgada, tendo também por horizonte a antológica que estamos a desenvolver para apresentar até final de 2011 no Museu Carlos Machado. Eis o que resolvemos partilhar em jeito de conversa (“entre-a-vista”):
 
Lúcia Marques - "O Terceiro Dia" é título da tua exposição mais recente, onde partes literalmente do 'Livro da Criação' (Génesis). Desde cedo que os nomes que dás às tuas séries de trabalhos reflectem sobre a origem/nascimento do mundo... Basta lembrar exemplos como: "Do Mundo e do Ser" (1996-1997), "No Princípio" (1999-2000), "Os Primeiros Frutos" (1999-2000)... A que se deve este novo projecto dedicado ao "Terceiro Dia"?
 
Urbano - No fim, todo o meu trabalho pressupõe uma reflexão sobre a vida que é a meu ver o tema mais interessante e importante porque intemporal e universal. Sem ela tudo era nada. 
Neste caso o recurso ao texto do Livro do Génesis traz à luz a ideia da existência de um Antes, porque e apesar de tudo o que até hoje se sabe sobre a própria origem do Universo (que é muito e praticamente nada), chegamos sempre a um ponto em que esbarramos numa pergunta: E antes?. Este texto afirma-a, reforçando a certeza da nossa imensa insignificância, e, por isso, este conjunto de obras é sobre sementes, plantas e árvores, formas de vida que nos antecederam neste planeta.
 
LM - “Sobre sementes, plantas e árvores”… e com elas. São pinturas em que a acumulação matérica, e de matéria com resíduos (imagino que do teu atelier, onde também tens guardado raminhos, folhas, etc), as aproxima da própria natureza que retratam. Diria mesmo que: ao ponto de se tornarem escultóricas…
 
U - Algumas das minhas obras (pinturas e desenhos) podem, ou podiam, ser classificadas de baixos-relevos em resultado da acumulação de matéria ou elementos estranhos (raminhos e folhas, como referes, e não só).
Nesta exposição é sobretudo num desenho preparatório que isso acontece, nele, para além de parte de um livro, estão incluídas sementes de um fruto que comi no dia em que as utilizei como matéria de pintura.
O desenho (#18) tem ressonâncias do "Big Bang".
 
LM - Uma vez que a tua obra se resolve muito 'no fazer', num exercício da pintura sobre ela mesma, qual a importância dos teus estudos preparatórios?
 
U - Estudos preparatórios é uma maneira de dizer porque o que faço é começar a dar corpo à ideia com obras de pequeno formato à procura da cor e dos elementos essenciais que a possam traduzir. Devido ao seu formato, nestas obras, há sempre uma frescura e espontaneidade que me interessam particularmente.
 
LM - Como é que procuras manter essa “frescura e espontaneidade” quando passas para outros formatos, aqueles que depois escolhes mostrar? Eles parecem-me funcionar como uma espécie de guião que assegura a coerência dentro de cada série de trabalhos…
 
U - Pelo facto de ter já “exercitado as mãos” na nova ideia em formatos que, num gesto curto, com uma pincelada, posso destruir e começar de novo. Assim levo para os grandes formatos esta liberdade de fazer e desfazer sem pudor nem receio algum. Normalmente uns e outros vão sendo feitos em simultâneo e o que quase sempre acontece é que dou por concluídos mais rapidamente, e primeiro, os pequenos formatos.
 
LM - E qual a relação destes trabalhos, que também usam gesso, com os que irás mostrar no fim deste ano, na tua antológica no Museu Carlos Machado, e que estás a produzir em paralelo?
 
U - Todo o meu trabalho é alimentado por um mesmo universo. O meu. No que faço, quer se trate de gravura, desenho, pintura ou escultura, desenvolvo, aparentemente, sempre as mesmas ideias. Até certo ponto é assim variando apenas o suporte. Interessa-me explorar a cor e a matéria e cada técnica apresenta potencialidades diferentes. Por exemplo a inclusão de elementos estranhos (plantas e ramos) é mais frequente em desenhos e esculturas.
Nos desenhos a forma como trabalho o papel, com espessas camadas de tinta e muita água, cria ondulações (como a superfície da terra). Por um lado aproxima-os de um baixo-relevo, e, por outro torna-os facilmente receptivos à inclusão dos tais elementos estranhos.
Nas esculturas o que acontece é de certo modo semelhante, embora, pela sua natureza a abordagem seja mais rica em parte graças à escala das peças. Para além disso o gesso é muito generoso. Não só aceita tudo o que se lhe põe em cima como também que se o retire e volte a colocar, que se aumente ou reduza o seu tamanho e até aceita ser destruído para nos escombros se encontrar um fragmento que pode surpreender. Permite criar uma obra que depois de terminada pode ser muito diferente do imaginado no princípio.
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FONSECA MACEDO - ARTE CONTEMPORÂNEA | 2017