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The world is meaningless unless you define it through a drawing. We have to shape the form of the world.[1] É dentro desta tentativa de apropriação do mundo, utilizando a representação pictórica para o conhecer e para nele assinalar uma presença, que se inserem os desenhos que Pedro Cabrita Reis apresenta na Galeria Fonseca Macedo.

Arquitecturas, casas, mapas, linhas topográficas, canais, sombras, locais marcados pela presença humana na paisagem natural. Todos estes elementos são visíveis nos desenhos de Pedro Cabrita Reis, como se houvesse o desejo de definir geograficamente, através da manifestação concreta da ocupação física, os territórios observados, percorridos ou recordados.

Nestes desenhos observa-se uma quase tensão entre as manchas de cor, imprevisíveis e incontroláveis na sua ausência de contornos e delimitações, e a racionalidade das formas geométricas, linhas e curvas precisas, traçadas a grafite negra, que rasgam sulcos nas paisagens orgânicas e informes. Contudo esta tensão está desprovida de qualquer agressividade e resolve-se exactamente no procurar traçar geografias que permitam ao artista conhecer o que o rodeia e onde se move para, em última instância, saber mais sobre si mesmo.

Dando forma ao espaço e projectando-se nele, o ser humano materializa a sua existência e as suas memórias de forma visível e duradoura, vê-se projectado num território que, mais do que sofrer alterações, recebe um segundo extracto: o humano ergue-se sobre o natural, não para o anular mas para se fundar a partir dele, para existir sobre ele.

É interessante encontrar nestes novos desenhos alguns temas recorrentes na obra de Pedro Cabrita Reis: os canais, agentes da osmose entre a água e a terra; a criação de mapas, linhas irregulares que definem contornos de topografias invisíveis; o processo de construção, de destruição (poderá existir uma sem a outra?) e de desconstrução; as formas arquitectónicas daí resultantes, aqui simplesmente evocadas, retiradas de paisagens retidas na memória e a ocupação caótica, ao mesmo que tempo racional, de locais e de tempos sobrepostos.

Estas últimas questões levam-nos a reflectir acerca da relação estabelecida entre o artista e o mundo físico e, por consequência, com a paisagem. Este termo implica um distanciamento do observador face ao horizonte que se manifesta diante do seu olhar mas que, simultaneamente, requer a suficiente proximidade para permitir uma visão atenta e compreensiva sobre ele.

Para Cabrita Reis o conhecimento do real produz-se através do diálogo gerado pela introdução do humano no natural: Nature has disappeared as a reference. We have lost it within ourselves to such a point that we came to the moment where the exercise of architecture is the only form that makes the world comprehensible.[2] E de novo voltamos à urgência da projecção de si mesmo no espaço, para lhe conseguir dar forma.

Seja construtiva ou destrutiva, a ocupação produz-se mesmo sendo um traçado mental, mimético, quase sonhado e torna-se um sintoma, um signo de existência.



1, 2  “A Conversation with Pedro Cabrita Reis”, com Adrian Searle in Pedro Cabrita Reis, Hatje Cantz Publishers, 2003

 

 

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FONSECA MACEDO - ARTE CONTEMPORÂNEA | 2017