Fábulas Contemporâneas e um Retrato ◄ Voltar

"Em 1976 Luís França Machado teve primeira exposição individual. Foi no museu da sua cidade, quando finalista, ou pré, do curso de pintura da Escola Superior de Belas Artes de Lisboa (ESBAL), que dois anos decorridos concluiria, em período atribulado da instituição, em busca de reestruturação. Eram exercícios de nuvens acasteladas e mar batendo rochedos solitários, quadros miniaturais de óleo sobre papel. Depois, novas individuais em espaços privados ou já de cobertura oficial, em ritmo menos intervalado entre os anos terminais de 80 e começos da década seguinte, num percurso de mais ampla geografia regional e nacional. Entretanto, conheceu também selecção de obras para colectivas, nomeadamente e na Ilha de origem, em mostra de "" Açorianos na arte contemporânea portuguesa - homenagem a Canto da Maia"", que realizei em 90 (Março - Abril) para o Museu do Nordeste, de cuja organização fui responsável e tivera inauguração oficial no ano anterior. Com os quadros desta nova exposição, Luís França Machado dá continuidade a dizeres plásticos já antes afirmados, mas agora com incursões de ordenação espacial em alguns deles repartida. Sendo lembrança de diferente lição, melhor satisfaz à sua maior dimensão, num discurso imagético de distinta leitura do conjunto. Na raíz desta pintura permanece o gesto com referente no real, mas sem deformação de formas, tão pouco dependente de insistência radical no espalhar das cores. No sistema cromático que utiliza mantém fidelidade à ausência de contrastes violentos, assumindo, no entanto, ocasionais transgressões, nomeadamente nas manchas de vermelho quente de ""Susana I"" ou de um dos intitulados ""Leda e o Cisne"", sem prejuízo, todavia, dos efeitos de luminosidade, que são carga dominante na gama das suas cores e no processo combinatório de tonalidades. É neste jogo de paleta que o pintor constrói o espaço dos quadros, na liberdade de gesto que convém à sua matriz abstracta, mas cujo movimento de mão passa a ser controlado no acto de figurar os elementos que constituem a respectiva estrutura externa. Por esta via de figuração - que tem modernidade reassumida em diversificadas tendências expressionistas não abstractas - a direcção que lhe serviu à estrutura interna do espaço pictórico cede à transferência para o conhecimento do real, sem mimetismo mórfico, porque às formas recusa quanto é supérfluo à sua identificação imediata. Feitas imagens da memória do pintor ou, porventura, de um reinventado quotidiano ainda recente, tornam-se propostas de contemporâneos novos mitos, por entendimento pessoal, ou fantasias de bem humorada ironia, a que não faltam títulos adaptados e adoptados de antiga tradição - ""O regresso de Europa"" e ""Leda e o Cisne"". Outros, por empenho idêntico, são de invenção própria, em afirmação de saborosa sátira de actualidade onde, em tempo de iliteracia nacional, há ""...macaco leitor"", e também é possível, sob revolucionadas nebulosidades doiradas - tornadas ""Luar de Agosto"" - , o pintor passear - ou por ele ""O Macaco conceptual com as Amigas"" - em canoa que navega no fio do lombo de amável touro. A este, encontrámo-lo também na doçura domesticada que serve a uma ""Europa"" deslocada do mito grego e, mais ainda, rendido a uma ""Leda"" desprovida de desejo amoroso, em paisagem varrida pela frieza do amarelo. O motivo da bêsta, travestida de fera amansada, tem antecedente na exposição de 92, a par com representação de baleia - dicotomia terra/mar - , no presente substituída por outras zoomorfias, de que o pato tem presença mais amplamente desdobrada: no regaço de rapariga desnudada, cobiçando maçã presa na árvore - inversão do protagonista da mítica contravenção da ordem divina, mal de todos os males, e que em os ""Três patos e uma rapariga"", da ""História do soldado..."", parece ter resultante lógica legada pela tradição judaico-cristã. Como elementos figurativos, entre os demais que povoam o espaço, são partes nascidas do que já foi vivido e retido como olhar íntimo do pintor. É neste sentido que servem à função desta linha de pintura, desvinculada de intenção objectiva, tal como não cabe ao espaço construído por Luís França Machado solução perspectivada. Daqui resulta, por coerência de atitude estética, não haver em cada quadro hierarquia entre valores de figuração e de abstracção, porque aqueles, são sugestões das formas essenciais e o espaço foi criado como experiência subjectivada. E isto é válido, igualmente, para o acto de memória afectiva personalizada intitulado ""Retrato"", na aparente discrepância de ser também auto-retrato. Nestor de Sousa"


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FONSECA MACEDO - ARTE CONTEMPORÂNEA | 2017