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Fair & Square

Temas para um discurso teórico: A exposição é atravessada por temas que se têm cruzado no meu trabalho, designadamente, a pintura como objecto no espaço, a reflexão sobre a possibilidade e construção das significações que associamos aos objectos e o reconhecimento das conexões não verbalizáveis da memória. 

Objectos na parede: Desde o início, tive a intenção de que fossem objectos independentes. Assim, pela primeira vez no meu trabalho desde 1999, a parede não é o campo comum que cria os espaçamentos onde os objectos se contaminam mutuamente; a parede é, agora, o fundo geral de onde eles se destacam, e neste sentido, não se pode dizer que estes objectos sejam muito sociáveis se comparados com os que tenho realizado. 

Imagens representadas: Também do fundo geral, mas neste caso de imagens fotográficas do meu arquivo pessoal, se destacaram as figuras representadas. Reparei numa figura casualmente captada no fundo de uma fotografia de amigos, que me lembrou alguma pintura de Velazquez – nada em particular, mas várias lembranças que se fundem [consentindo à pressão de nomear, talvez o retrato de Francisco Lezcano (c. 1638) seja o que de mais próximo possa ser identificado com essa fusão de lembranças]. As restantes imagens foram intencionalmente procuradas. A ligá-las, o mesmo efeito em mim, relativamente a outras memórias, frequentemente da pintura, pontualmente do cinema – impossível nomeá-las.

Pinturas: O tratamento digital das imagens foi conduzido por cada uma, já que não se tratou da afirmação de um estilo, mas sim das conexões que a memória operou – mas em geral foram utilizados processos de fragmentação, distorção e saturação da imagem. Do mesmo modo, na transposição das digitalizações para objecto pictórico, o revestimento da superfície da tela foi da forma adequada a cada pintura – como a forma de contar uma história a ela se adequa. Em qualquer caso, a figuração consolida-se com o progressivo afastamento dos objectos [tive sempre atenção a isto]. 

Títulos: Os títulos referem aquilo para que as pinturas me remeteram, e são, na verdade, apenas nomes que as distinguem. 

Fair and Square: Como estas pinturas quadradas, também este texto é honestamente isto – ele refere apenas como estes objectos apareceram agora na parede, representando o que representam e com as denominações que têm. O porquê da sua aparição pertence ao domínio do discurso teórico, e este depende das memórias com que forem conectados, e por isso mesmo, eles se definem progressivamente quando, vendo-os, deles nos distanciamos para dentro de nós próprios. Como, de resto, os próprios objectos, que, distanciando-se do que os motivou, aguardam o complemento e o começo das ficções que deles se desencadeiam no espaço anterior à parede.

Maria José Cavaco

2018-12-03


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FONSECA MACEDO - ARTE CONTEMPORÂNEA | 2017