Fenais da LUZ ◄ Voltar

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A vida recortada em matizes. A vida recordada em matizes.
As manhãs e as noites. Ou a lua que já desponta enquanto o sol habita ainda o horizonte.
O rigor branco e negro das gaivotas questionando o mar, o amarelo das conteiras nas encostas. A força verde com que a ilha se lança na lonjura. O manto azul e protector com que a lonjura regressa à ilha.
Uma música antiga subindo a rua, calcando de pétalas os passos alinhados e entrando, com uma flor em cada nota, pelas janelas abertas.
A alegria da festa, do riso casto, dos rebuçados desenrolados com o nervosismo de quem espera descobrir, no embrulho recortado com uma arte de criar sonhos, o mapa do tesouro. O mapa da vida.

Tudo coisas simples, afinal, que nos vão sobrando dos dias. Mistérios coloridos que se evadem e regressam, num jogo de luz e sombra, como a velha faia à espera da madrugada. Ecos alojados na alma, que dão um rumo à nossa pele e um mapa às memórias.

E, sempre, o tempo – esse espelho tosco com que fintamos a morte – apontado para nós como a lança do arqueiro. Incolor, de todas as cores. Por um instante, apenas, hesitante. Mas depois implacável, sem retorno. A grande certeza do mundo a avançar na nossa direcção, a inexorável verdade da seta – que, a um brevíssimo suspiro da colisão, só pelas lembranças aplacamos. Como um bater de asas salvador, quando a tempestade se anuncia.

As peças da Catarina Branco são isso mesmo: uma travagem, um levantar voo. A seta abranda, dá à infalibilidade da rota um pequeno intervalo de luz. É nesse intervalo que tudo nos é dado a ver, pela explosão de cor de algumas peças em contraste com a severidade monocromática de outras.

Fenais da LUZ é então o sítio, real e simbólico, onde esta teia se forma. Por entre o silêncio do feno (e “fenais” deriva do termo “fenal”, pelo muito feno que havia no lugar) levanta-se a exuberância da LUZ. Da inquietude onírica das peças a preto e branco (em que, como num sonho, nos afundamos em serpentes e em flores, em fetos, corações, aracnídeos, dispostos numa simetria quase assustadora) passamos para a vigília colorida das lembranças: o correr das estações, as flores colhidas para enfeitar as casas e semear de beleza as ruas no passar da procissão, os guardanapos recortados e dispostos sobre a mesa, fazendo de cada prato um recipiente de alegria, as luzes acesas rompendo a noite como um arco-íris.

A vida dita pelos desígnios de uma lâmina.
Porque a mão, ao recortar este papel, assina-o. Dá-lhe um nome e um espaço, a proximidade quente de um verso familiar, lembra-lhe o grande segredo cósmico que já todos esquecemos.

E devolve-o, pelo golpe silencioso do gume, à seiva da velha faia – na sua espera, antiga e paciente, das cores que regressam em cada madrugada.

Ponta Delgada, Novembro de 2009

Renata Correia Botelho

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FONSECA MACEDO - ARTE CONTEMPORÂNEA | 2017