Fez-se Luz ◄ Voltar

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Alma Mater – entre o espírito e a matéria

 

Podemos afirmar que este tipo de trabalhos se aproxima do que Nicolas Bourriaud designa como altermodernidade, termo aplicado à arte contemporânea conotada com o estádio actual da globalização. Este conceito implica que, a par da necessidade de mundialização do artista (considerando que o território no qual se move não implica um determinado posicionamento geográfico) está, igualmente, num movimento aparentemente contrário a resgatar os particulares e os localismos. Desta forma, o sujeito artístico está preocupado em reflectir sobre questões que se prendem com a sua identidade e, ao mesmo tempo, com as culturas de outras origens. Devido a este factor, muitas obras de arte daqui resultantes são uma mistura de referências, constituídas em torno de conceitos como os “arquivo” e “mapeamento”, e cujos elementos usados constituem uma verdadeira manta de retalhos, num hipertexto no qual podemos ler várias narrativas identitárias.

No caso de Catarina Branco podemos afirmar que esta trabalha a partir do lugar específico que é a cultura açoriana mas, através desta, faz referência ao que é característico de qualquer civilização – o seu lado de miscigenação, ou de hibridação. Nestas obras, podemos verificar as ligações estabelecidas com a África, o Brasil e o Oriente, fazendo jus à própria povoação e [aam1] colonização açorianos, ela própria protagonizada por povos de diferentes origens. Este aspecto coloca as suas obras numa perspectiva verdadeiramente globalizante, reflectindo sobre a ideia de equivalência ou partilha cultural.

 

Espírito

As obras expostas na Igreja do Colégio possuem um lado eminentemente espiritual. Este sentido advém, igualmente, pelo lado formal das peças que têm um aspecto cruciforme, sendo verdadeiras relíquias pessoais. Pelo facto de estarem expostas no espaço da igreja existe, aqui, a introdução de uma ligação entre o profano e o sagrado. O profano dá-se de várias maneiras, sobretudo pela referência à cultura popular. O lado sagrado, para além da inserção no espaço religioso, manifesta-se na associação conceptual com os cinco elementos, numa evocação de um outro ciclo, ligado à Natureza, imbuída, ela própria, de uma enorme espiritualidade, numa vertente mais arcaica.

 

Matéria

No núcleo expositivo de Santa Bárbara encontramos um outro conjunto de obras que apelam, antes de mais, ao sentido visual, estético e táctil. Em forma de ilhas, estas possuem um carácter alusivo à densidade vegetal e material que caracteriza o arquipélago. Tecnicamente, são o resultado do mesmo processo utilizado no conjunto de obras anteriores e lembram-nos processos quer locais – tais como a construção dos tapetes e flores utilizados nas festas religiosas – quer processos criativos de origens distantes como o japonês origami. A exuberância destas obras coloca-as dentro de uma estética pop, utilizando materiais comuns como o papel e os mapas das ilhas (utilizados para aludir às crateras existentes nas ilhas) e as cores vivas que nos recordam o exotismo açoriano.

Apesar de, conceptualmente, haver nesta exposição uma separação entre Espírito e Matéria, o seu objectivo é a complementaridade. Nas obras de Catarina Branco, assim como na vida, estes dois aspectos nunca se separam e caracterizam aquilo que é a experiência humana, com um pé na Terra e os olhos colocados no Céu.

 

“Fez-se Luz” é a derradeira afirmação de uma espiritualidade na qual a simplicidade dos materiais é engrandecida pela arte de quem os trabalha, e cuja força não se pode ignorar porque está directamente ligada àquilo que mais intrinsecamente nos caracteriza como humanos.

As obras de Catarina Branco são, também, um apelo à contemplação, contrariando a velocidade da vida contemporânea. Talvez isto se deva ao facto de serem intrinsecamente açorianas mas prontas para dar uma lição de esperança e alegria a toda a humanidade.

 

Texto de Carla de Utra Mendes adaptado do catálogo "Fez-se Luz" e escrito de acordo com a antiga ortografia.

Lisboa, 2011

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FONSECA MACEDO - ARTE CONTEMPORÂNEA | 2017