Gravuras por Tom Flint ◄ Voltar

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Quando pela primeira vez no começo de 1995 eu e os meus colegas da Slade School of Fine Art vimos os trabalhos de Tom Flint, que então se candidatava a uma posgraduação em Gravura, ficámos à altura muito impressionados com uma série de enormes desenhos de arquitectura bem como com algumas notáveis gravuras a preto e branco que faziam parte do seu portfolio. Eram trabalhos que revelavam um grande talento mas cuja forma tinha as suas raízes mais no passado que no presente. Se os desenhos eram algo académicos e de conotação neoclássica, as gravuras, com o seu chiaroscuro Rembrantesco, lembravam-me a obra dos grandes gravadores tradicionalistas Britânicos da primeira metade do século passado, tais como Cameron e Muirhead Bone, cuja visão reflectia em grande parte a obra do grande mestre holandês. Isso levou-nos a questionar se as gravuras que Tom tinha feito representando a igreja de São Marcos em Veneza e Tottenham Court Road em Londres, apesar do seu brilhantismo técnico, não seriam limitadas na sua visão. No entanto, depois de ter sido aceite na Slade School, o trabalho de Tom Flint evoluiu rapidamente para uma imagética mais aventurosa e decididamente do seu tempo. Assim temos nesta exposição a oportunidade de ver a obra de um jovem artista em evolução, à procura do seu próprio mundo, em que a uma atitude sardónica se contrabalança uma visão mais metafísica e sombria da realidade do nosso tempo. Até certo ponto, estas gravuras reflectem as inovações dos anos sessenta e do movimento da Pop Art, em que o uso de letras e frases escritas e desenhadas à mão se combinam com um desenho muito livre e linear de representação da figura humana. São de facto comentários umas vezes irónicos, outras vezes mordazes do mundo que o rodeia. A meu ver encontramo-nos aqui em face de uma série de gravuras notáveis, não só pela sua qualidade, mas também pelo seu conteúdo, que requerem da parte do espectador uma grande atenção em relação aos textos e aos detalhes, pois é nestes que se encontra a chave que leva à compreensão da imagem. Estas são gravuras em que a inteligência, o poder criador e a sensibilidade do artista se combinam, conduzindo assim a uma total integração da forma e do conteúdo, uma qualidade rara nos nossos dias.

Bartolomeu dos Santos

Janeiro 2003

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FONSECA MACEDO - ARTE CONTEMPORÂNEA | 2017