Interrupções e Imperfeições ◄ Voltar

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Em 2012, Rui Calçada Bastos participou numa exposição no Museu de Arte Contemporânea de Oslo intitulada «Unfinished Journeys» [Viagens Intermináveis] - um título que poderia servir igualmente para denominar uma parte substancial da sua obra. Podemos encontrar já nos primeiros trabalhos de Calçada Bastos, como na vídeo performance Pausa, de 1995, uma certa inquietude itinerante que atinge tanto as pessoas como os objetos; a mesma errância inquieta manifesta-se nas suas séries seminais de fotografia e trabalhos fílmicos, como The Mirror Suitcase Man [O homem da mala de espelhos] (2004) ou Events - Life in a Bush of Ghosts [Eventos – a vida num bosque de fantasmas (2008), e reaparece de novo na produção mais recente.

Objetos e pessoas deambulam por locais incaracterísticos e provisórios, sem densidade específica ou identidade territorial – ruas, praças, pontes, estações ferroviárias. A câmara capta o ambiente em pequenos fragmentos descontínuos e nega aos observadores um plano geral que lhes possa servir de orientação. Calçada Bastos evita o reconhecível, obscurece a identificação do seu paradeiro e evidencia o movimento enquanto tal.

Mesmo que a série fotográfica de 2014 Interrupções e Imperfeições ofereça no subtítulo um sinal de localização - Berlin Series – as imagens poderiam ter sido tiradas em qualquer outro lugar. As seis fotografias, de dimensões iguais e formato vertical, exibem segmentos desertos do pavimento de uma estrada, recolhem a miscelânea de marcas rodoviárias e de faixas centrais, regressando, assim, aos temas do fluxo urbano e da itinerância nómada.

A imagética recorda a série Eventos (2008), igualmente voltada para a representação do movimento urbano, sem se fixar no retrato de pessoas ou de transportes citadinos, de modo a se ocupar, em vez disso, do caráter espectral dos objetos que povoam as ruas, da deriva urbana do mundo material. Mas enquanto Eventos adota uma estratégia escultórica, Interrupções e Imperfeições é intencionalmente linear para melhor interpretar a paisagem da cidade enquanto sistema fragmentário de um desenho. As linhas, na maioria pontilhadas, divergem muito e apresentam uma grande variedade de estruturas e ritmos, desde os mais estáveis e rígidos aos mais soltos e aleatórios, incluindo os padrões quase invisíveis do desgaste manchado. Apesar de a continuidade ser perturbada pelo emaranhado e sobreposição de linhas de elétrico e de segmentos de asfalto, todas estas interrupções e imperfeições revelam-se incapazes de destruir a imagem que sobressai das fotografias de Calçada Bastos: a de um desenho linear percorrendo sem fim as ruas da cidade.

O artista conduz o observador pelas estradas, olhos postos no chão, seguindo as linhas instáveis do asfalto como se nelas permanecessem os marcos visuais e sonoros de um chamamento ancestral convidando à partida para mais uma viagem interminável.

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Rui Calçada Bastos nasceu em Lisboa em 1971. Estudou fotografia e belas-artes na Academia das Artes Visuais, Macau, China, na Faculdade de Belas-Artes do Porto e na Faculdade de Belas-Artes de Lisboa. Fez residências artísticas no âmbito de vários projetos, como o Projeto Fidalga, em São Paulo (2015), e ainda, em Villa Aurora, Los Angeles (2011), em Künstlerhaus Bethanien, Berlin (2003) e na Cité International des Arts, em Paris (2002), entre outras. Foi distinguido em 2011 com o Primeiro Prémio no Festival de Vídeo International, em Macau. Na sua prática artística, dedica-se à fotografia, ao cinema e à instalação. É co-fundador de um espaço em Berlin dirigido por artistas, o Invaliden 1. Regressou recentemente a Lisboa, depois de mais de dez anos a viver e a trabalhar em Berlim.

Texto: Markus Richter, janeiro de 2016.

[Curador independente e escritor, residente em Oslo. Áreas de interesse: urbanismo e práticas espaciais.]

Tradução: Leonor Sampaio da Silva (CHAM-A/Universidade dos Açores)

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FONSECA MACEDO - ARTE CONTEMPORÂNEA | 2017