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But when the melancholy fit shall fall
Sudden from heaven like a weeping cloud,
Thet fosters the droop-headed flowers all,
And hides the green hill in an April shroud

John Keats, Ode on Melancholy

 

As imagens de Sandra Rocha são presumíveis documentos de uma deambulação pessoal por espaços físicos e emocionais. Não sei nada do seu contexto, nem da forma como foram pensadas, em que condições foram captadas, que tipo de relações desenvolveu com as mulheres que insistentemente povoam a constelação de circunstâncias heteróclitas que fixa. Não saber nada destas imagens não é particularmente constrangedor, porque cada uma delas cria uma trama de referências, na qual os universos femininos e a identificação de lugares são fornecidas através de processos formais muito precisos.
Assim, o seu carácter de documento – seja na série de imagens que compõem o projecto (In) definições Atlânticas, em torno das ilhas que constituem a Macaronésia, seja no longo retrato que é o mapeamento de Ming Liang Wu ou na série Atocha, é sempre permeado por duas qualidades específicas: uma omnipresença humana e uma espessa melancolia.
A omnipresença humana não reside na exclusiva presença de pessoas nas suas imagens, mas no facto da sua razão de ser estar sempre vinculada a alguém que vê ou a alguém que é visto. É por isso que a acidez das fotografias de Atocha coloca sempre na nossa memória a câmara descartável com que foram captadas, mecanismo simples e quase uma ortótese do olho; ou por isso é que a paisagem é sempre fornecida num contexto em que a sua observação é um dado construído, quer porque é já dada como paisagem na decoração de um lugar, quer porque os processos de construção de um ponto de vista (um miradouro, por exemplo) estão invariavelmente presentes.
A melancolia é uma qualidade mais difusa e menos objectivável, mas nem por isso menos constante nas suas imagens. A melancolia, extrapolada do contexto saturniano da sua origem, surge a partir de uma consciência da fugacidade, de uma constância do abandono e de uma hiper-atenção à fragilidade da beleza. Qualquer destas características são estruturantes das imagens de Sandra Rocha, mesmo e paradoxalmente quando são directamente tematizadas (como na imagem dos cisnes recortados na negritude da água), porque são provavelmente internas ao seu processo constitutivo, ou seja, porque essa é a sua procura.
Talvez esta característica seja a marca da sua insularidade. Como posso saber? Resta-nos seguir os indícios que as imagens espalham, discretos e breves.

Janeiro de 2009

Delfim Sardo

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FONSECA MACEDO - ARTE CONTEMPORÂNEA | 2017