Mapas do Mundo e Fotografias de Paisagem (para Desenhos de Nenhum-Lugar) ◄ Voltar

"

Antes mesmo de percebermos do que trata o trabalho de Marco Pires  somos seduzidos pelas suas qualidades plásticas e visuais. O artista obriga-nos a uma deslocação na qual convocamos tudo o que sabemos da paisagem (como testemunho de estranheza e não de vizinhança) e dos modos de a representar.

Os trabalhos são compostos por elementos díspares que nos obrigam a realizar uma multiplicidade de operações de percepção/interpretação. De um lado, temos trabalhos que reúnem, sobre o mesmo papel e num espaço rigorosamente bipartido em dois rectângulos sobrepostos. Sempre em cima, impressões mecânicas de mapas (fotos de satélite do território dos EUA) recolhidos num antigo Atlas e, sempre em baixo, um desenho que parece surgir como eco desse mesmo mapa – mas poderemos, mais tarde, perguntar-nos se não devíamos antes trabalhar sobre a ideia inversa: ser o mapa (testemunho de um conhecimento científico) o eco do desenho (testemunho da deriva proporcionada pelo conhecimento subjectivo). Por outro lado, temos um conjunto (menor em número) de fotos p/b que percebemos registarem diferentes aspectos de uma mesma paisagem.

A primeira sensação é a de haver uma estranha unidade entre todas estas imagens, afinal tão diferentes entre si, no que representam e no modo como são tecnicamente obtidas. E é essa primeira sensação que devemos seguir na apreciação mais objectiva desta série. Poderemos então pensá-la, não como confronto entre elementos isoláveis (mapa/desenho de um lado, fotografia do outro) mas como um conjunto de trípticos, que temos que procurar construir a partir das soluções de montagem no espaço da exposição – uma unidade submetida a rigorosas operações/jogos de ecos e espelhamentos, distorções e derivas, inversões e deformações.

Marco Pires coloca-nos na pista de três diferentes modos de conhecimento do real acentuando, para cada um deles, e através das suas operações de reinterpretação, a dimensão da subjectividade que, em diferentes graus, cada um já comporta.

O Mapa é uma abstração – sabemos por Borges, que apenas à escala 1/1 um Mapa poderia ser imagem do real. O mapa é, por isso, sustentado por um conjunto de convenções de representação que, conforme os tempos históricos e culturais que integra, garantem a universalidade da sua interpretação. Podemos seguir essa evolução das indicações aborígenes ou ameríndias, às representações ptolomaicas, aos portulanos dos navegadores portugueses, aos avanços técnicos novecentistas ou aos registos de satélite que os mapas citados nesta série dão testemunho. Mas em qualquer época, por mais objectivo (rigoroso) que possa parecer o seu discurso o Mapa é um campo de sonho e ficção romanesca ou política, de ambição e projecção de futuro, de conquista ou derrota, de evasão.

O Desenho coloca-nos num campo privilegiado de subjectividade mas é, afinal, o único elemento real deste conjunto de imagens. Resultando do depósito de sedimentos de grafite pura no papel, cada uma das acções do artista gera uma cadeia de acasos criando imagens sempre diversas associadas à imagem do mapa/ fotografia aérea que surge acima. Ao trabalhar em díptico Marco Pires mantém a sugestão de serem (Fotografia e Desenho) imagem espelhada, mancha rorschachiana um do outro, anulando as diferenças existentes ou, melhor, amplificando as suas similitudes.

Finalmente, a Fotografia. Como técnica histórica, a fotografia rodeou-se de uma aura de objectividade e similitude com o real que, há muito sabemos ser tão falível como todas as restantes convenções de representação. Neste caso, Marco Pires introduz uma tensão suplementar: entre a verosimilhança dos registos do deserto de Joshua Tree (Califórnia), que ele mesmo percorreu, e a mitografia (especialmente fílmica, de John Ford a Antonioni) que cada uma destas imagens evoca. A fotografia surge, assim, referida à matriz de uma ficção (a que fazemos do Oeste Americano), construção subjectiva que distorce toda a possibilidade de leitura realista.

Apesar dos dados objectivos fornecidos pelas fotos e mapas e suas legendas, as imagens de Marco Pires criam (em três tempos/modos) o sentimento de um lugar impossível de situar com exactidão no espaço e na história. Por um lado, criam a ideia de um lugar incerto: se desenhos e mapas são imagens derivativas, rapidamente percebemos também que mapas e fotos não se espelham, porque os lugares que representam descoincidem entre si. Por outro lado, esta estratégia não conduz à ilustração do não-lugar de Marc Augé; porque não se trata de representar a banalidade anónima das cidades mas antes a ficção de um lugar-nenhum colocando-nos numa espécie de Terra do Nunca – na medida em que nos faz partilhar de uma ficção do imaginário ocidental (tornado universal pela cultura de massas) sobre um lugar extremo-ocidental (o do Oeste norte-americano). É o paradigma da land art, como declinação da arte conceptual, que o trabalho de Marco Pires cita e, em simultâneo, nega – precisamente porque não assume a natureza como realidade mapeável mas como ficção que, sugerindo-se como libertadora (já que permite pensar num lugar total  onde tudo pode ser/acontecer), se resolve como constrangedora (cerceada pelo próprio facto de apenas existir como utopia).

No final do nosso percurso (simulação de uma viagem) recuperamos e justificamos a nossa impressão inicial de sedução; percebendo que ela nasce da tensão entre as três direcções propostas e do modo como o desenho se impõe ao mapa e as fotos garantem a solução interpretativa do conjunto – de tal modo que arriscaria dizer que Marco Pires procura o mapa como eco dos desenhos (e não o inverso) e as fotos como mirror sorciére, espelho convexo capaz de conter em si todo o espaço circundante (e não como apêndice ou complemento do conjunto). Mas poderíamos também ter começado este texto reparando numa fotografia onde o artista simula um desleixo relativamente à secura e rigor de composição de todas as restantes imagens deixando aparecer a sua própria sombra de fotógrafo na margem inferior da paisagem. Este auto-retrato, discretíssimo, é mapa e é depósito do seu corpo no centro desses lugares que não existem.

João Pinharanda

Paris, 9 de Outubro de 2015

"


facebook instagram Drawing Room Store
FONSECA MACEDO - ARTE CONTEMPORÂNEA | 2017