Memórias de Atlântida: A Pintura de Victor Belém ◄ Voltar

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"Se te pudesse dizer o som vivo da mais pura claridade e oferecer o azul raro que mora no centro da onda que o mar não dissipou." Gonçalo Salvado - "Onda" Victor Belém tem vindo a afirmar no contexto da arte portuguesa contemporânea uma personalidade muito original, entre a pintura, a escultura, a cerâmica, a fotografia, o diaporama, a instalação e a performance, diversidade de expressões reveladoras da modernidade do seu estilo e manifestando, ao mesmo tempo, a unidade da sua estética sensível ao diálogo entre a realidade e um imaginário inspirado pelos grandes arquétipos e mitos fundadores. Atlântida, referida num dos diálogos platónicos, é o mito condutor da sua actual exposição, tecido de imagens de um inconsciente progressivamente enriquecido. O artista iniciou o seu percurso em 1958, com uma figuração próxima do expressionismo, que Graça Garcia descreve: "(...) o uso da espátula e a preferência por suportes em madeira trabalhados na posição horizontal denotam a necessidade e propiciam uma certa violência de gesto que gradualmente desmembra as figuras, as afila em fundos esvaziados, levando-as primeiro a uma quase explosão matérica e finalmente a uma explosão cósmica já influenciada por Pollock e pelo dripping " (1) . Interessado pelo cinema de Resnais e pelo teatro do absurdo, encaminha-se gradualmente para uma diluição da figura num magma de natureza escatológica e alquímica sugerido por matérias residuais, relevos a três dimensões, plásticos, pedaços de objectos devolvidos pelo mar. Diálogo entre as expressões da pintura e da escultura, metáforas da desintegração que ameaça as formas resolvendo-se no ciclo das caixas, "retorno à gruta uterina" (2) , lugar de reencontro com o sagrado devolvido à natureza humana, que os títulos esclarecem: "caixa carne viva", "caixa do eterno retorno", "caixa flor", "caixa dos meus irmãos poetas", "caixa das memórias". Caixas esculturas, integrando espelhos, imagens fragmentárias da alma, entre o Caos e o Cosmos que os fundos sugerem. Os anos 70 vêem nascer a performance e a instalação completando o sentido "poético-surrealista" e "político-social" das "caixas-objecto" e dos objectos, com recurso a colagens, a fotomontagens e a materiais orgânicos (Graça Garcia) numa relação possível com a estética Dada ou com as assemblages de Rauschenberg, acentuando-se uma vertente surrealizante não isenta de humor que permanecerá uma marca da obra de Victor Belém A partir de 1976 a pintura evolui de um modo mais autónomo, paisagens de forte componente cósmica enquadradas em janelas de arco perfeito acompanhando experiências com a escrita. O artista continua a interessar-se pelo cinema e pelo teatro e já nos anos 80 passa pela abstracção geométrica das suas "meta-paisagens" a que irá seguir-se a integração de elementos hiper-realistas em composições surrealizantes que em 83 passam a ser "objectos reconhecíveis, em decomposição, elementos puramente gestuais, vestígios, acumulação de formas e texturas." (3) Arqueologia do Imaginário "Estamos a alinhar símbolos nas prateleiras do infinito." Cruzeiro Seixas - Texto para a exposição "Anamnésia". Prosseguindo os seus trabalhos com a fotografia e o diaporama, inaugura outros ciclos da sua pintura, "Escavações" com o predomínio de negros e cinzas e "Arqueologias", paisagens da memória, para a cintilação do "espírito das coisas" (1988-1990), anamnese ressuscitando cenários oníricos onde Cruzeiro Seixas viu "densas florestas secretas e vulcões representados como triângulos pousados sobre a linha do horizonte, onde só velejando se poderá chegar." (4) Novos cenários para viagens iniciáticas, "achados do mar e da alma", tema de uma exposição de 1994, reflectindo "instantes de muitas viagens, que, afinal, pertencem a uma só viagem: aquela que o artista faz até ao âmago do seu instinto criador." (5) . Victor Belém reconhece nesse contexto a importância que o mar, "água mãe da nossa origem" teve no seu percurso criador, fonte de memórias, de segredos que a matéria esqueceu, perdidos em "ilhas que eu sabia existirem na minha memória ancestral" (6) , miragens e realidades insuspeitadas, aparições, visões que assume com a procura da identidade, missão fundamental da arte e da sua arte. Se em meados dos anos 80, e conforme confessa, os deuses saíam dos seus pincéis num convite à grande viagem do desconhecido (7) , o pintor correspondeu inteiramente a esse convite, contemplando-nos, em 2002, com visões alimentadas pelo diálogo com fadas e elfos, que mais não são do que metáforas do maravilhoso que lentamente lhe foi e nos foi descerrando as suas portas. Rui Mário Gonçalves, que interpretara os seus rituais de morte e de transfiguração, reconhece nas "pinturas paisagísticas" desta fase "fragmentos de um mundo imaginário" feito de ansiedades, dádiva que nos ajuda a "assumir o incessante devir da lucidez humana perante o Universo, a dor que passa e a alegria que quer eternidade" (8). Na verdade Victor Belém tem vindo a aprofundar o seu nível de conhecimento num processo que ele mesmo resume: "da realidade em espelhagem imediata dos primeiros trabalhos, à realidade mágica por detrás do espelho dos trabalhos actuais." Profundidade oceânica do conhecimento que segundo Ehrenzweig (9) caracteriza a evolução do processo artístico. Natural será que nessa viagem ao seu inconsciente, que nessa audaz transição do consciente para o inconsciente, do visível para o invisível, o pintor tenha sido levado rumo ao território insondável, ao mítico continente submerso de Atlântida. Verde luxuoso e luxuriante das imagens, maré cheia de caules e de cintilações prodigiosas, dédalo guardando a memória húmida dos nossos passos, floresta de sonhos virgens e impalpáveis delícias. Fronteira e limiar que podemos transpor mergulhando na facilidade pura do ar e da água, líquido primeiro das nossas fantasias. Espelho de pensamentos que se movimentam com a agilidade de peixes, amantes da frescura e do âmago livre das formas. Caudal de uma pura dança da origem quando tudo se confunde e aspira à gestação da vida. Amoroso abraço da terra e do ar, das árvores adormecidas no coração dos rios bebendo o doce licor da terra. Terra mãe de aparições lentas onde lentamente se vai esculpindo o rosto do homem. Corpo da terra no dealbar tímido de um universo pleno e tão novo quanto uma aurora despontando na virgindade boreal do mundo. Entre brumas verdes o corpo ascende ao altar do universo, corpo da terra e corpo do homem em feliz uníssono. Assumpção de uma pureza que é a imagem do humano encontrado, do seu princípio, desenhando no fim de tudo, o todo. Corpo estirado da terra, voluptuoso, cristalizado na rocha, cristal transparente onde se reflectem os verdes paraísos infantis. Céu de claros instantes felizes, navio da terra singrando no fundo do oceano. Liberdade mais livre, cimo abissal, azul supremo, além estelar rompendo todas as barreiras conhecidas, firmamento onde se escrevem todos os nomes de uma civilização que achou a sua memória no profundo mar dos sonhos. A identidade também, círculo que a imagem repercute. Círculo vivo de palavras e de imagens instaurando a voz da poesia, "esse som vivo da mais pura claridade" de que fala o poeta Gonçalo Salvado. Apelo intemporal ao outro e ao outro de nós mesmos, imagem perdida "no azul raro que mora no centro da onda que o mar não dissipou", amoroso eco de uma completude.

Maria João Fernandes 

1. Garcia, Graça - "A História do Percurso ou Das Três Vidas de um Pintor." Texto do catálogo da exposição" 30 Anos de Artes Plásticas, 1958-1988" - Pintura e Objectos.

2. Idem, ibidem.

3. Idem, ibidem.

4. Cruzeiro Seixas - Texto do catálogo da exposição: " Anamnésia". Galeria S. Mamede 1992.

5. Letria, José Jorge - "Achados do Mar, Achados da Alma". Texto do catálogo da exposição "Ilhas e Outros Achados". Fortaleza Nossa Senhora da Luz, 1994.

6. Belém, Victor - Idem, Ibidem.

7. Belém, Victor - Idem, Ibidem.

8. Gonçalves, Rui Mário - "Lugar de Presságios". Texto para catálogo da exposição "Fadas, Elfos e Outras Visões". Galeria Municipal de Exposições de Vila Franca de Xira, 2002.

9. Ehrenzweig, Anton - L'Ordre Caché de l'Art , Editions Gallimard, Paris 1974.

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FONSECA MACEDO - ARTE CONTEMPORÂNEA | 2017