Missão na Fronteira ◄ Voltar

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Seguindo, não demasiado de perto, uma ideia expressa por Walter Benjamin num pequeno ensaio sobre pintura e desenho *, diremos que, ao contrário da linha gráfica do desenho, que necessita de um fundo sobre o qual apareça e se manifeste, a mancha, elemento essencial da pintura, advém no interior do próprio médium. A pintura não está sobre um fundo, a pintura é na sua totalidade mancha e médium de mancha. O carácter de aparecimento desta mancha, o seu controle e o seu uso, tornam o trabalho do pintor, a sua maneira de olhar, o seu tipo de atenção aos acontecimentos do quadro, algo de especial e único. O pintor produz uma atenção que ela própria se mistura com o médium, e lhe orienta os grandes e pequenos gestos. Podemos observar os cumes deste procedimento nos rostos pintados por Ticiano, mas, onde esta característica da pintura está, sem mais, posta em destaque é em alguns quadros monocromáticos que, para serem efectivos, necessitam, por parte de quem os faz, um exercício constante desta atenção; e um proceder correctíssimo. Ao contrário do que poderá pensar alguém menos habituado a ver e reconhecer o trabalho de pintura, o executar uma superfície plana sem mácula, ou com as manchas onde podem e devem estar, pode constituir uma das tarefas mais árduas a que um pintor decide lançar mão. Muito especialmente isto é válido para o negro. Controlar a execução de uma superfície negra é uma tarefa hercúlea e nunca completa. O negro parece quase exigir que do seu interior surja a mancha, que irrompam de dentro de si pequenos vislumbres de luz, que também se revele com ele o que lhe é diferente. O trabalho de Laura Pels Ferra surge aqui imediatamente mergulhado num terreno de ambiguidade, o próprio título, “Agentes Duplos”, o sublinha. Por um lado, usa todas as componentes do desenho, a linha gráfica e o seu carácter de signo, o papel branco como fundo, e o próprio médium, o guache, participa muito dessa intenção gráfica que permanece na base. Por outro lado, ao apresentar-nos arquipélagos de ilhas negras cujas dimensões são de tal forma que o olhar para a matéria e vibração do seu interior é indispensável, afasta-se do mundo gráfico e entra claramente no território da pintura. É a tensão que vem desta ambiguidade que caracteriza plasticamente o trabalho. Esta fronteira entre as disciplinas é reforçada ainda por um trabalho de diferenciação na fronteira das formas, nos contornos que aqui mostram a ambiguidade e duplicidade do seu ser Esta duplicidade que produz a tensão plástica da imagem é reforçada e complementada pela tensão na representação. Esta encontra-se sempre no limiar de um possível reconhecimento, como se camuflada pelo impulso de a vermos como abstracta. Análoga ao procedimento de um agente duplo no terreno, cuja sobrevivência depende de poder ser, ao mesmo tempo, reconhecível e irreconhecível. Na sua origem estas imagens são fragmentos de outras imagens, de imagens de livros de quadradinhos onde se contam aventuras de agentes secretos, de espiões, de polícias e bandidos, são livrinhos de leitura imediata, nos intervalos do quotidiano, não aspiram ao estatuto quasi-artístico-literário de outras bandas desenhadas, têm o aspecto eminentemente gráfico que o registo a preto e branco lhes dá, e são, neste ponto, de uma espantosa variedade. E, curiosamente têm, apesar da actualidade dessa forma de arte, um ar de coisa que passou. A origem da escolha e o procedimento de trasladar uma imagem de um médium para outro acrescentando-lhe novas dimensões parece remeter para maneiras de fazer que relacionamos com a arte pop dos anos cinquenta e sessenta. Mas aqui o intuito é diferente: Não se pretende re-apresentar a imagem, acrescentando-lhe valor simbólico, ou reafirmar-lhe a actualidade. Ao colocar no limiar do reconhecimento o referente e a origem das imagens, reafirma-se aqui, a um outro nível, o carácter quase secreto, ambíguo e duplo deste colocar-se na fronteira entre a afirmação sígnica do traço e a camuflagem da pintura, exigindo do espectador uma missão de descoberta de um agente duplo que opera na fronteira.

João Queiroz

* Über die Malerei oder Zeichen und Mal

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FONSECA MACEDO - ARTE CONTEMPORÂNEA | 2017