No Abismo Secreto do Peito ◄ Voltar

"O tempo vence-me em velocidade, lento nas suas manifestações, violento no

seu reflexo, amargo entre a pele e o ar. Surge o cansaço externo às coisas
de dentro, e com ele, ressurge também a preparação do ar para ser expirado,
e ilude-me a descoberta de um mais que certo abismo....
Humedece-me a planta dos olhos, o amor, e o que nessa palavra se
adivinha, tão pouco é o que se levanta do que se soletra na boca e tão pouco
é aquilo que se aproxima de um beijo.
Recordo agora os dias da palha, as noites de fogo em fumo para bebermos
apontados ao céu, e as vezes em que caí enganado e outras em que não
pude adormecer comigo.
Trouxe-me para a bruma em fôlego e pausa, e sinto que o meu azul seria
outro se não fosse rodeado de água, se não me tivesse nascido uma lagoa nas
mãos...
É para as memórias que me trago desta vez, e para os amores belos e
mortais que ainda me assombram a estrutura das mãos.
Recordo-me agora de não me lembrar das vezes que me espreitei a ver os
belos passos dos meus amores, e da sombra que nos olhos queimava e enchia de mortalidade.
Sei que os vou voltar a ver. Aqui congelei-os para mim.

Paulo Damião

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FONSECA MACEDO - ARTE CONTEMPORÂNEA | 2017