No silêncio do tempo ◄ Voltar

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    É no silêncio da terra, na humidade crepuscular do húmus que a planta germina, e é no silêncio morno do útero materno que o ser humano começa. A génese da obra de arte acontece num momento de silêncio interior do artista.

    No objecto de arte acabado nem sempre é evidente esse momento. Por vezes o artista pretende esconjurá-lo porque o confunde com a solidão. Mas jamais o poderá evitar quando decide a forma que concilia as suas contradições.

    Luís França não o esconde. Depois de "O Mundo esquecido de Deus", onde os seres se encontram perdidos num deserto existencial, surge agora num momento de introspecção mergulhado na neblina da origem clássica do pensamento ocidental. O pintor deixou o mundo monoteísta da problemática anterior pelo politeísmo mágico do mundo greco-romano. Nada é explícito. É um universo de fragmentos, uma espécie de arqueologia cultural que pretende sugerir o todo ou, pelo menos, transmitir a emoção que se desprende do que julgamos conhecer desses tempos iniciáticos da nossa caminhada civilizacional. O pintor dá-nos a sugestão do silêncio dos séculos que guarda o murmúrio das gerações que nos trouxeram até ao século XXI, a esta civilização tão cheia de contradições modelada pela racionalidade e onde o sagrado se pretende libertador.

    Se escutarmos os quadros desta exposição podemos perceber o sussurro dos oráculos, a voz da pitonisa, o grito longínquo dos guerreiros, os discursos inflamados da Ágora. Há uma empatia com as gentes que nos deixaram um tão formidável legado. Reconhecemo-nos naquela matriz. Até chegarmos aqui passamos por muitas misérias, por grandes arrebatamentos, por muitos crimes, por muitas acções de pura e vã glória. Mas não esquecemos esse substrato fundador que nos deu a racionalidade sem obliterar o sonho.

    Pintura metafísica? Porque não? Mas também pintura física, do simples acto de pintar, do encontro da matéria pictórica com a tela. Pintura física também na materialidade da representação onde o simbólico resulta da relação espacial dos objectos. Os rostos multiplicam-se num jogo de espelhos mas nunca são réplicas de si próprios. Em cada quadro o mesmo rosto tem conotações diferentes que podem ir do mais amável lirismo à mais olímpica exaltação. Em todos podemos encontrar a promessa de uma revelação, a chave oculta para o interior de nós mesmos, a esperança de um oráculo favorável.

Há uma promessa de felicidade tranquila que nos faz acreditar no género humano.

 

J.M. de França Machado

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FONSECA MACEDO - ARTE CONTEMPORÂNEA | 2017