O Corpo e a Alma ◄ Voltar

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Quadros, dezoito telas pintadas a óleo, de que duas são combinações de técnica mista, com pastel e grafite – “O princípio da espiral” – e grafite em “O corpo e a alma”, título que também cobre esta exposição de Luís França, para que o antes pensado na expressão latina Anima – Alma – não gerasse, por confusão de pronúncia – anima – míngua interpretativa ou deturpação semântica. Variáveis nas dimensões, sem que haja miniaturas opostas a grandezas desmedidas, são obras de 2003 que, já por aquela via, permitem espectáculo visual de conjunto harmonioso. E isso convém ao espaço da Galeria, mau grado, em termos museográficos, a quebra rítmica imposta pela saliência estrutural que suporta o arco do tecto. A exposição desdobra-se em tantos temas quanto as telas pintadas – como a individualização de títulos começa por sugerir – ; não são capítulos de uma história narrada, cenas de uma dramaturgia, andamentos de uma sonata ou partes de bailado. A intenção de Luís França não é a busca de um estilo, antes procura um dizer artístico, cuja linguagem tem por referente básico – anunciado em exposições anteriores – a figuração, de que o retorno à pintura é atitude contemporânea de suporte ideológico, possível de estabelecer diálogo com a abstracção, entendida como difusora de conceitos idealistas. Na rejeição de fundamentalismos iconoclastas crismados de post-modernismo e sem afeição por movimentos anti-cultura nascidos nos começos do século XX, cujos corifeus e seguidistas acreditaram poder passar atestado de óbito à pintura figurativa, Luís França recorre a poética mítica, que nele é fascínio imaginativo de criar quadros. Mas também afirma estas pinturas como memórias vividas, de que o protagonismo cabe à criação de espaços abertos, sem imitação de figuras nem de fundo. Por outras palavras, com os quadros rasga o mundo real e desmonta lembranças, sedimentadas, do que lhe foi conhecido. Assim, concebe-os como lugares de revelação feitos fantasias sem tempo nem lugar, em que cada um é espaço de abrigo a que se acolhe e para que convida, por invenção sua de pintura. Caminhando pelo sonho de paraíso em paraíso, introduziu elementos e motivos depurados, que os tornam especialidades cenográficas. Repartidas, na generalidade, em variedade de enquadramentos ou ocasionalmente feitas infinitos – “O princípio da espiral”, “O deserto e a pele” e “Canto da Maia no Paraíso” – , habitam-nas, todas, esquemas humanizados e de outras morfologias, dispensados de minudências, ao modo dos velhos ícones. Mais títeres do que pessoas ou animais, fazem ouvir o seu silêncio pintado, por vezes, na presença tutelar de árvore ou arbusto, porque fonte de vida de que escorre o sonho e faz despertar para a partilha do amor – “O deserto e a pele” – ; interroga o silêncio – “O homem do pássaro – ; inspira o imaginário do artista – “O corpo e a alma” – ; alimenta a urgência de amar – “O meu corpo é feito da mesma carne que o mundo”. Nesta viagem de eterno retorno de moderno Ulisses, sem as desventuras homéricas, não há “Circe” ou “Io” sensual e expectante que impeçam a recolha de “recado”, repetido em “confidências” murmuradas perante o esfíngico “gato e o silêncio”, qual anacoreta. Tal como “As águas que passam favorecem a inspiração do poeta”, o pintor, travestido Hamlet aconchegando caveira, pede ao “Princípio da espiral” para criar o mundo que lhe escapa, onde há “cães cor de leão” aguardando tranquilos o alimento, ignorando “Porque canta o corvo de Noé” e que “Havia na Tessália uma donzela chamada Leonor”. “A comer o sonho”, enquanto “Alguém desenha à sombra” e uma nova Penélope sentada e não fiandeira está “À espera de Ulisses”, Luís França revisita “Canto da Maia no Paraíso” – melhor sorte que a medievalidade concedeu ao Dante da Divina Comédia – , com Hino de Amor dos progenitores da Humanidade e não pecaminosa tradicional contravenção da vontade divina. Flocos azuis cercam a imagem montanhosa. Longe está a árvore tentadora e, na faixa estreita que remata a bidimensão do espaço, acastelam-se nebulosas tonalidades, como se o despertar para a realidade de um mundo convulso se avizinhasse para calar a voz do sonho. Por coerência estética, na linguagem pictórica deste “Corpo e Alma” proposto por Luís França, a luminosidade do amarelo dourado, em variedade de cambiantes, é acto visual dominante que, do outonal melancólico se combina com ocre, amarelo avermelhado e esverdeado, meticulosamente espalhados mas, por vezes, feitos manchas ou já vaporosos. Associam-se ainda com o preto da solidão e nostalgia, o vermelho de função castamente erótico e a calma frieza do verde, em apontamentos episódicos de alguns quadros. Deste cromatismo dimensional de elementos concretos ou feito fundo, a paleta investe também no azul que reveste corpos em busca do ignoto e longínquo, mas sobretudo e com realce, no azul celeste porque, sem limites, é o meio próprio do pintor ultrapassar o tangível e alcançar o infinito. Com ele, a plenitude do amor imaginado.

Nestor de Sousa

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FONSECA MACEDO - ARTE CONTEMPORÂNEA | 2017