O GRITO DO FUNDO DO MAR ◄ Voltar

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"Enquanto as ondas lambem o teu corpo desfeito em inumeráveis grãos de areia"

 

Quando o avião baixa, vejo pela janela a superfície do oceano. O Sol ilumina esta espécie de pele de gigantesco animal, fazendo brilhar as escamas diminutas. A cor escura faz adivinhar a profundeza abissal, e vêm-me ao coração o medo e o respeito, ao mesmo tempo que um vago desejo de abandono "suicida" a um possível abraço amoroso e final.

Sempre que venho aos Açores, quase todos os anos desde 1991, tenho esta estranha sensação de terror e amor misturados.

Talvez seja, no fundo, a minha maneira de olhar para as coisas. Tudo é pele, para um pintor, não só a superfície marinha. A própria pintura mais não é do que uma película, estendida pelo pincel, que cobre a tela. E, por baixo desta pele, o mistério da profundeza, onde podem habitar o horror ou a maravilha.

E nós também somos pele.

Pintar a pele da amada: tarefa difícil, impossível, pois nela se encontram todas as cores, todos os matizes do universo. Como olhar o seu olhar se, procurando alguém, vemos apenas a pura negrura de uma noite sem estrelas?

Mas voltemos aqui, afinal!, ao corpo destas ilhas tão belas, das quais não posso esquecer o prazer dos rapazinhos que, no Verão de 91, mergulhavam no mar no portinho da Caloura, ou o Sol a entrar no mar na praia dos Mosteiros,

Pensando nesta exposição em São Miguel, para mim um grande quebra-cabeças, decidi por fim dividi-la em duas partes: uma primeira composta de peças anteriores, de genuína temática açoriana, nunca vistas aqui; e uma segunda com a obra realizada recentemente, que mostra as minhas preocupações actuais ^72; a "figura", a pele humana e o movimento.

Apesar desta divisão, quis conservar o título que há tempos tinha pensado (o grito do fundo do mar), pois uma mesma emoção, um mesmo desejo e uma mesma poesia inspiram todos os trabalhos. Afinal, a pele da amada e a pele do mundo são, sem dúvida, idênticas.

 

Santiago Mayo

 

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FONSECA MACEDO - ARTE CONTEMPORÂNEA | 2017