O Processo do Negro ◄ Voltar

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« La sensation de noir est une impression positive ce n´est pas l´absence de toute sensation» Goethe Imagine-se um espaço recolhido, muitas vezes ignorado, no canto de uma casa. Está coberto de pó negro desde o chão às paredes e as minas de carvão de várias densidades encontram-se por todo o lado. O trabalho do artista desenvolve-se neste local: é um laboratório onde as fórmulas são testadas e vividas. Aqui ele é simultaneamente mineiro, cientista e manipulador. Dele é exigido um total domínio e jogo com os materiais.Controla e é controlado. É uma incessante descoberta pois o processo nunca havia sido experimentado, embora trazendo lembranças de percursos anteriores: a obcessão pela produção serial, a visualidade quase gráfica e o jogo estabelecido no pólo positivo/negativo (aqui branco e negro; orgânico e geométrico; bidimensional e tridimensional). A novidade e surpresa desta experimentação resulta em seres caprichosos, verdadeiras personas de identidades muito próprias e individuais, cada um impossível de ser jamais repetido. Eles são gesto, marca e rasto. Uns são quase retrato, quase paisagem, quase cosmogonias, quase personagens de animação... eróticos e livres ou racionais e exactos, sujos ou limpos. São seres sensíveis ao tempo, quer ao climático (a humidade permite uma maior absorção do carvão vegetal no papel) quer ao de produção, faseado entre a sua feitura, a transformação/ revelação à luz, a perda de camadas de pó negro e a sua própria selecção. Eles exigem igualmente um outro tipo de tempo, o da percepção, para que se possa descobrir as suas subtis intensidades. Apesar da sua assumida bidimensionalidade, o material trabalhado faz com que através das suas várias densidades estes personagens ganhem volumetria e espaço. É quase uma experiência de escavação arqueológica que o observador deverá desempenhar. São seres enigmáticos, muito pouco definidos que se colocam num limbo. São sobretudo processo de experimentação que não se deseja terminado.

Carla Utra Mendes

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In Mèredieu, Florence de, Histoire Matérielle et Immatérielle de l´Art Moderne, ed.Larousse, 2004,p.108

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FONSECA MACEDO - ARTE CONTEMPORÂNEA | 2017