O silêncio eloquente da escultura ◄ Voltar

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Fraqueza e força, frio e calor, presença e ausência, matéria e sopro, são algumas das tensões que atravessam o trabalho de Rui Chafes. As suas esculturas caracterizam-se, fundamentalmente, por não estarem enraizadas numa posição fixa, mas por constituírem um vocabulário tão flexível e plástico quanto é o problema com que a cada momento se confronta. Os seus gestos são acerca da possibilidade da realização da escultura: a cada nova escultura está em causa a possibilidade do todo da escultura; que esta e aquela obra possa existir; que este e aquele gesto se possa realizar. E, simultaneamente, ao ser um trabalho sobre as condições de existência da escultura, é um trabalho sobre os limites da linguagem que utiliza. Uma consciência dos limites que tem como resultado não um elevar-se para lá da escultura, mas um assumir que da impotência da linguagem (de qualquer linguagem) em dizer o que mais importa nasce uma tensão produtiva e reveladora de densidades afectivas e de passagens entre diferentes regiões do pensamento. E é este intervalo entre dizer e não conseguir encontrar a palavra certa, mostrar e deixar escondido, tornar visível e manter invisível, que constituí o caudal que subterraneamente atravessa a totalidade da produção de Rui Chafes,
Em A minha fraqueza é muito forte (2008) a questão do limite surge no modo como o habitual ferro negro das esculturas de Chafes se parece desmaterializar e obedecer a um conjunto de condições e regras que não são as que habitualmente o ferro — pesado, duro e frio — está sujeito. Nesta série, a pequena dimensão do objecto escultórico aproxima-o do corpo humano (cada escultura parece um corpo seccionado), não no sentido de representar este ou aquele corpo mas como sendo a condição de todo e qualquer corpo. Por isso, as figuras que se podem ver desenhadas com o ferro negro parecem moldes de possíveis corpos (de todos os corpos), matrizes nas quais se pode forjar qualquer forma, qualquer corpo, ideia ou gesto. Mas estes são moldes especiais porque são móveis e deixam-se atravessar por um princípio vital que é próximo do sopro ou da brisa invisível que tudo envolve sem ser notada: está sempre a rodear cada coisa, mas só através de um movimento especial — expressivo, plástico, denso — se torna visível, consciente, material. A brisa é a boa imagem para descrever o que acontece dentro e por entre estes corpos: ela está lá, mas não se deixa agarrar, o que transforma estes objectos em seres especiais que se movem como se fossem delicadas fitas que unem todas as coisas, intensificando-as e tornando-as significativas.
Este conjunto de esculturas faz de cada elemento da série um momento de especial intensidade. A contenção da escala apresenta-se como abertura para um universo em que a gravidade da escultura se anula e vê-se à frente dos olhos a concretização da sua promessa: ser pensamento, movimento, sentimento, ideia. Se se pensar nos desenhos de Rui Chafes estas novas esculturas são-lhes estranhamente próximas. Uma estranheza que é uma surpresa no sentido em que o movimento, a fluidez e liberdade do traço sobre o papel é transposta para um meio que, em princípio, nunca poderia ser tão expressivo e livre. E tal como por vezes se está impreparado para a chegada do desenho — os desenhos das crianças são a melhor imagem do seu carácter inesperado — , está-se impreparado para compreender deste modo a escultura. As habituais coordenadas conceptuais que permitem o acesso ao objecto escultórico não se aplicam aqui: relacionamo-nos com estas esculturas como se elas fossem um desenho na parede, uma imagem cinematográfica, um conjunto de cabelos movidos pela brisa.
O estar-se impreparado para receber estas esculturas — talvez por ainda não estarmos mortos, porque para Chafes (apropriando-se do que diz Genet) a arte destina-se à imensa comunidade dos mortos —expressa não só a sua inactualidade (Rui Chafes pertence a um outro tempo e lugar), como localiza estas esculturas num espaço de descoincidência entre aquilo que de facto se sabe e aquilo que se pode saber: sabe-se sempre mais do que aquilo que nos é legítimo saber, estamos sempre a cometer infracções, a transgredir territórios, a falar sobre coisas que nunca se poderão provar, ver, percepcionar. A arte significa este tipo de transgressão e o trabalho de Rui Chafes tem aqui a sua vocação: a forte eloquência do silencioso ferro negro está sempre a apontar para lá de si, a transgredir as suas condições materiais, a dizer coisas que não estão lá, a falar da vida, da morte, do movimento do que não se move, da vida do que parece morto, do divino em nós e na natureza. São esculturas que se mantêm à distância, figuras hieráticas e improfanáveis que não se deixam dominar resistindo à sua transformação em mais um objecto, em mais uma coisa, em mais uma escultura. Por isso, nunca as conseguiremos perceber completamente e experimentá-las significa enfrentar as dúvidas e incertezas acerca de tudo o que se julga saber acerca da arte e de nós próprios.
Estas permanentes transgressões das esculturas de Chafes, fazem com que se identifique o seu trabalho como estando para lá de qualquer medida e desdizendo toda a discursividade humana: por isso é tão difícil falar sobre estes trabalhos (e quase todos os outros), porque nunca nenhum conceito se justa inteiramente, nunca nenhuma palavra diz a coisa como ela realmente é.
Neste frio em que me deixaste (2008), a outra escultura desta exposição nos Açores, é uma porta que não tem avesso ou reverso e não dá para sítio algum. Assenta sobre o chão parecendo não lhe tocar, como se levitasse ou subtilmente sobrevoasse a superfície terrena. À altura dos nossos olhos uma malha perfurada deixa que o olhar atravesse a cinzenta e sólida placa de ferro e o que se vê diz respeito a uma experiência que nunca poderá ser inteiramente nossa, maior que nós, que nos ultrapassa, mas à qual sabemos, de algum modo, pertencer. Esse outro lado é aquele silêncio — frio e indizível — que sabemos ser a nossa origem e destino e em relação ao qual tudo o que faz, que se diz, que se pensa ganha o seu significado.
 
Nuno Crespo,
Outubro de 2008
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FONSECA MACEDO - ARTE CONTEMPORÂNEA | 2017