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"A gravura tem um significado próprio no conjunto da obra plástica de Vieira da Silva que não perturba o seu desenvolvimento, nem modifica o seu sentido. A artista iniciou-se nas técnicas da água-forte, do buril e da ponta seca em 1929, no célebre Atelier 17 dirigido por Hayter, em Paris. Foi uma breve iniciação, já que só em 1960 a técnica do buril foi retomada quando realizou as gravuras para L’Inclémence Lointaine de René Char. O mesmo se passou com a litografia (a primeira data de 1948) que só retomou em 1961, após algumas experiências que a deixaram insatisfeita. A serigrafia só foi praticada pontualmente por insistentes pedidos do galerista Pierre Loeb e de Lourdes Castro e René Bertholo, artistas portugueses que viviam em Paris. De todas as técnicas, Vieira da Silva preferia o buril, a gravura a preto e branco, pela luz que conseguia obter dos contrastes da gama de cinzentos. A litografia a cores sempre lhe provocou reticências e reservas, pela opacidade e pela falta de qualidade das tintas de tipografia. Essa procura de transparência, levou-a a preferir o papel Japão pela sua luminosidade. A sua obra gráfica não pode, no entanto, ser encarada com reservas ou como uma produção redutora, já que a artista sempre fez questão de controlar a edição dos múltiplos que assinou, com a exigência que sempre teve para com o seu trabalho. As diferentes técnicas que usou, apesar das suas características e constrangimentos específicos, não condicionaram o seu objectivo criador: encontramos, com estes ou outros títulos e nas suas variações imaginativas, temas como Bibliotecas, Labirintos, Cidades, Estações, Jardins, Azulejos. A preocupação da artista centrou-se, nestas como noutras técnicas, na descrição do tempo, na sugestão do espaço. Vários historiadores de arte referiram que a obra de Vieira da Silva se caracterizou por uma meditação sobre o quadrado, o azulejo da sua terra natal, cuja característica é de ser múltiplo. Ligado ao tempo e ao espaço, o azulejo isolado representa um instante; a sua multiplicação pressupõe uma duração, a sua disposição traça uma perspectiva e a sua desarrumação pode confundi-la. Tanto as suas Cidades como as suas Bibliotecas fazem referência ao tempo, à história e ao espaço. Os livros poderiam ser casas e a sua organização nas estantes corresponderia a edifícios e ruas, os seus jardins são subvertidos pelas estações e temas como a “Atlântida” são explorações do tempo e do espaço lendários. Tal como na sua pintura, Vieira da Silva tentou pela gravura descrever o mundo e desvendar a sua complexidade, sugerindo o espaço, o decorrer do tempo, utilizando metáforas e metamorfoses,. Este conjunto de gravuras desvenda as suas tentativas de traduzir a realidade que não corresponde nunca à maneira como nos habituaram a vê-la, de uma forma plásticamente credível. Marina Bairrão Ruivo"


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FONSECA MACEDO - ARTE CONTEMPORÂNEA | 2017