Os Dias que Passam ◄ Voltar

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O homem só pode ser si mesmo por completo enquanto estiver sozinho.
Arthur Schopenhauer
 
A exposição “Os Dias que Passam” de Tiago Silva Nunes é o segundo capítulo de “Broken Strangers”, uma investigação fotográfica sobre a solidão e melancolia na metrópole contemporânea. Londres foi o primeiro. “Os Dias que Passam” retrata a cidade de Lisboa. Seguir-se-ão Pequim, Rio de Janeiro e Los Angeles.
Silva Nunes ensaia uma reflexão sobre a relação entre o homem e a cidade e cruza as histórias de ambos.
A industrialização e a urbanização da cidade moderna tinham como objectivo a racionalização da cidade medieval, que implicou uma separação racional e funcional dos espaços de trabalho, residência e lazer. As consequências dos ideais utópicos modernistas foram uma crescente individualização do habitante, o qual desenraizado da sua comunidade, é transportado para uma situação de solidão, anonimato, e de não pertença. Ao isolamento junta-se a melancolia derivada de uma crescente separação entre a cidade e a natureza no seu estado mais puro.
Tiago Silva Nunes debruça-se exactamente sobre a ideologia da arquitectura e do urbanismo modernista e os seus efeitos na vida contemporânea das cidades e dos indivíduos que as habitam. As suas imagens relevam a forma como a produção do espaço revela relações sociais.
A sua estratégia visual assenta na construção de pequenas ficções através do uso de dípticos fotográficos articulando dois planos completamente distintos. Uma imagem representa um indivíduo num momento de acção dramática, a outra uma paisagem urbana ou rural vazia de personagens. Juntas incitam uma ideia de narrativa sequencial (cinematográfica quase) e sugerem histórias que extravasam as suas realidades documentais.
Na leitura das duas fotografias, cada espectador cria uma terceira, agora mental, para a qual transfere a sua leitura subjectiva, transversal, contaminada e ficcionada das imagens que visiona. Desta forma, cada par cria um diálogo com quem o contempla, sendo assim constantemente, transformado e actualizado.
Em “Os Dias que Passam”, Tiago Silva Nunes retrata uma Lisboa modernista, separada da natureza, antiga e popular, decadente por vezes, nostálgica. Os seus habitantes estão sozinhos, alienados, melancólicos, violentados silenciosa e dissimuladamente pela cidade que habitam. Se os ideais modernistas eram a criação de uma cidade na qual os seus habitantes seriam mais felizes e livres, a realidade pós-moderna são cidadãos isolados da comunidade e presos em si próprios.
Filipa Oliveira — Lisboa, Janeiro 2011
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FONSECA MACEDO - ARTE CONTEMPORÂNEA | 2017