Paisagem ◄ Voltar

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“In der Zeit des Verrats Sind die Landshaften schön.” Heiner Müller (Em tempo de traição As paisagens são belas.) A Paisagem é uma tradução de um encontro. Pode ser também expressão de um desencontro. Temos o outro frente a nós, dominável ou indómito, motivo de sossego ou desassossego. Belo ou sublime. Desde que deixou de ser fundo e passou para o primeiro plano do quadro como tema principal, a Paisagem indica uma relação com a alteridade, com o outro de nós, que reflecte como um espelho a imagem de uma presença. Os recortes que faz sobre a natureza, a escolha do que é representável, os artifícios que inventa para produzir ilusão, provêm de um sistema de categorizações que permitem dominar e viver num mundo. Mostram o horizonte de habitabilidade desse mundo. A Paisagem explora as estruturas mais básicas que, a partir da minha visão, eu verifico como campo possível de coincidência entre o ser assim do meu corpo e o ser assim da natureza: o perto e o longe; o alto e o baixo; a penetrabilidade e a impenetrabilidade; a esquerda e a direita; o contido e o incontido; o frente e o trás. A imagem que resulta mostra o sistema de composição destas estruturas: o que foi eleito como mais importante, o que ficou expresso e o que foi anulado, o que se objectivou e o que ficou em fundo. Na arte actual a Paisagem tem, naturalmente, sido revisitada, mais como expressão de um desassossego do que como imagem de uma dominação. Como representação de um mundo na fronteira da habitabilidade. Como visão de um homem perante a natureza cujos poderes parecem não se querer combinar. Como uma verificação da insuficiência das classificações. Como exploração de desencontros, mas também como ânsia de reencontro. Sobretudo mostra uma necessidade: a necessidade de sairmos de nós, para a nós regressarmos. A necessidade de pormos entre parêntesis os temas diagnóstico das nossas alegrias e tristezas, e olhar de novo com esta visão, e com este corpo, que a natureza e a história nos fabricaram. Neste processo a pintura deixou de ter um lugar privilegiado, mas manteve o seu lugar único. Que lhe advém de um grande poder metamórfico e de recombinação de elementos. Que lhe chega de uma particular mediação pelo corpo que executa e se escolhe a cada momento dessa execução. Que lhe é permitido pela liberdade de eleger, em cada gesto, entre a semelhança e a diferença. Pela possibilidade de acerto no erro. Pelo tipo de trabalho próprio e continuado da visão em toda a linha acidentada do processo. João Queiroz

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FONSECA MACEDO - ARTE CONTEMPORÂNEA | 2017