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PICO DA VARA

O desejo é a essência mesma do homem
Baruch de Espinosa
 
Pedra obscura e tenebrosa
 Job XXVIII, 3
 
     Pico da Vara: formação montanhosa da ilha de S. Miguel. Nas suas encostas encontra-se o habitat do priolo, pássaro endémico da ilha. Pico da Vara é o título que José Loureiro deu ao conjunto das duas pinturas e quatro desenhos que expõe na Galeria Fonseca Macedo (Ponta Delgada, Maio de 2012). Título que prolonga, como que em eco, a série de pinturas que em 2009 e 2010 surgiram sob o nome de «Priolo». Mas o melhor é ficarmos com uma sua justificação sobre a presença de «Priolo» na sua obra: «Parti as telas grandes em telas muito fininhas no Verão de 2009, em Julho, antes de ir passar 15 dias aos Açores. O nome Priolo surgiu quando o vi escrito numa tabuleta do Pico da Vara. Priolo é uma tela muito estreita e comprida com uma bordadura a negro e um interior constituído por uma única pincelada colorida, que começa num ponto e acaba nesse mesmo ponto. Depois de Priolo comecei a falar de Filamento ou Aro, dependendo da espessura da pincelada, até chegar à pincelada extra larga de Espinosa. Priolo, Filamento, Aro, Espinosa, tudo agora revolteia na minha cabeça.»   
     É este ainda o ímpeto que liga entre si as pinturas (2011, óleos s/ tela) «Lucerna» (30x271cm) — longa tela muito fina, marginada a negro, que em fundo branco recebe o percurso de um traço vermelho, e num dos seus extremos traz acoplada uma tela mais pequena, com o dobro da espessura, em que sobre o branco explode um continuado traço cinzento — e «Epígrafe» (70x221cm), na qual três estreitas telas se sobrepõem, a espaços, todas marginadas a preto e mostrando, na sua ascensão, sobre o fundo branco, o revolutear em circuito de um traço verde e depois vermelho e por último (e de novo) verde. Quanto aos quatro desenhos «Sem Título» (2012, guache e óleo s/papel, 76x56cm) eles guardam um estigma de desobediência, de insubmissão à pintura da série Espinosa — um grande núcleo colorido em explosão —, ao proporem-nos num fundo branco rectângulos (dois em cada desenho), que curvam nos seus ângulos e que revoluteiam em cor, em massa colorida (vermelho / azul, preto / amarelo, vermelho / verde, azul / vermelho). Separam essas duas matérias de cor a lisura de um rectângulo, isto é, o simples risco que sobre o branco toma a sua forma e que resulta do fechamento de um continuado traço preto. 
     As massas coloridas surgem como corpo primeiro — pedra obscura e tenebrosa — sustenta-as uma vontade livre — traço negro que sobre si mesmo se fecha —, que se torna desejo de engendrar um processo predestinado a receber um ilimite fragmentário e, logo, uma geração nova.
 
                                                             João Miguel Fernandes Jorge 
 

 OBRAS RECENTES

 


Será a pintura de uma abstracção uma representação?
Robert Hughes
 
Toda a representação é uma abstracção
Lis Rhodes
 
 
O trabalho de Pedro Calapez reside na tensão entre a (falsa) dicotomia abstracção/representação. Num primeiro olhar, as imagens que cria, particularmente as presentes nesta exposição, são constituídas apenas por cores e formas. Mas suspender a sua leitura apenas nesta observação inicial seria redutor em relação à sua profunda complexidade.
No seu texto “Absence and Abstraction” Antónia Pocock afirma que a abstracção conduz invariavelmente a uma incerteza sobre aquilo que vemos. Será que nos deparamos com imagens reais de alguma forma transformadas pelo artista, ou será que o objecto do nosso olhar são imagens na sua forma mais pura, não colonizadas pela linguagem?
Se no passado a figuração era proeminente na obra de Calapez, esta evoluiu para uma investigação visual que não pensa a imagem como mimética ou ficcional, como pura forma ou real transformado, mas antes como ‘imaginável’ no sentido de trazer à superfície do papel (ou do alumínio ou tijolo) uma representação que pensa a essência da própria imagem. Nos seus trabalhos, Calapez convoca a história do impulso abstracto na pintura e simultaneamente desafia essa mesma história propondo novas possibilidades.
 
As pinturas e desenhos de Calapez estabelecem-se na interacção entre o natural e o construído; entre um jogo formal de ritmos, cores e texturas e a materialidade das imagens e dos suportes que escolhe para cada trabalho; entre o traço livre, quase lúdico e o rigor da estrutura interna das obras.
 
Uma das especifidades mais marcantes no trabalho deste artista é a forma como explora a fisicalidade não apenas dos desenhos/pinturas mas também da tinta e inclusive da própria cor. Encarada como uma entidade para além da representação, a cor em Calapez situa-se num abismo de sobreposições que repensa a relação entre os diferentes planos, entre o singular e o plural. Uma técnica de grande consistência que usa a percepção do espectador como um dos seus maiores cúmplices.
 
Pedro Calapez não se satisfez com a conquista de um reconhecimento internacional e o percurso absolutamente firmado não conduziu a uma estagnação antes o motivou incessantemente a situar a sua obra numa constante redefinição dos limites da pintura e do desenho. 
 
Filipa Oliveira
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FONSECA MACEDO - ARTE CONTEMPORÂNEA | 2017