Propriedade Horizontal ◄ Voltar

"Dias Úteis. Segunda Pele. Adiar o Coração. São os títulos das exposições individuais que Catarina Botelho (n. 1981, Lisboa) apresentou nos últimos quatro anos. O seu trabalho constrói-se em torno de um continuado sistema, que à imagem de uma fita de moebius, propõe que a sua vida, método e objecto de trabalho se entrelacem numa uma única superfície. Tratando-se de um único movimento, o formato expositivo do seu trabalho revela-se como um momento de respiração, que nos devolve um olhar localizado num período da vida da artista.

O outro nome das coisas (uma peça múltiplo), Termo de identidade e residência (um livro de artista) e Modo Funcionário de Viver (um conjunto fechado de nove imagens) são como que ilhas no corpo de trabalho, ainda que incidam sobre um mesmo foco de conteúdo e expressão. Nestes trabalhos, que se distinguem nas próprias estratégias de apresentação, encontramos duas divergências de método: a repetição exacta do objecto de observação (uma parede, o auto-retrato, uma cama) e, excluindo o livro de artista, a ausência de pessoas nas imagens. Revisitamos o seu trabalho exposto e constatamos que apenas em Dias Úteis (2009) a artista integrou no conjunto de fotografias, quatro imagens em que também não surgiam pessoas. Na referida exposição, com esta proximidade entre diferentes olhares, ou objectos do seu olhar, a artista não encetava um novo caminho na sua prática. Mas, e de modo astuto, indicava-nos que toda a sua construção visual, mesmo quando incluía pessoas, invariavelmente absorvidas em situações de privacidade, era mediada pela lógica da natureza morta. Tratando-se de um rigoroso traçado que, através de uma economia afectiva, encontra na relação do enquadramento, do equilíbrio e do jogo de luz a expressão dos corpos, das roupas, dos objectos, dos alimentos, etc.

Propriedade Horizontal, a primeira exposição de Catarina Botelho na Galeria Fonseca Macedo, insere-se nesta solução de continuidade. Analisando as imagens que perfazem a mostra, produzidas entre 2009 e 2010, apercebemo-nos que o olhar se desviou, por completo, das pessoas. Fixou-se em configurações sensíveis que ocorrem numa horizontalidade, como sugere o título, mas também invocada pela qualidade horizontal da natureza morta. Uma camisa suspensa, um amontoado de roupa sobre uma cama verde, um vaso iluminado sobre um fundo sombreado, sacos de areia arrumados entre duas paredes, um pano, um livro e uma bolsa sobre o tampo de uma mesa, uma toalha num chão de pedra, o canto de uma arquitectura enigmática. Ainda que sejam imagens despojadas da presença de pessoas, são povoadas pela sua recente presença agora feita ausência.

Maria do Mar Fazenda

Dezembro, 2010 "


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FONSECA MACEDO - ARTE CONTEMPORÂNEA | 2017