RETÁBULOS ◄ Voltar

"

Com origem na Idade Média, o retábulo adquire grande desenvoltura no Renascimento enquanto espectáculo visual composto por uma variedade de estímulos de entre os quais a pintura assume inequívoca supremacia. Situado por trás ou acima do altar, o todo constitui uma espécie de fachada de um templo dentro do templo.

De fora para dentro – eis o primeiro movimento a que o retábulo convida. Sempre concebido para um espaço interior, ele convoca para a entrada e a permanência guiadas pelo olhar. A rica aplicação de várias formas, cores e texturas deseja prolongar o tempo de meditação nos crentes. Perante a convergência do religioso com o belo, sobressai a espiritualidade da matéria e vê-se para além do objecto pintado, esculpido, montado. Intui-se o espaço sagrado da vida.

Os retábulos não-convencionais de Urbano inspiram-se nesta tradição, mas não se conformam com ela. Respeitam a alusão ao livro e à mesa, dois elementos fundamentais com que o retábulo dialoga, mas apresentam-nos reconfigurados. Aberto ou fechado, o conjunto recorda a Bíblia e o Altar, símbolos complexos de alimento e sacrifício. Mas agora o livro não apresenta corpos celestiais nem figuras religiosas; prefere aproximar-nos do humano e do natural, santificando-os numa visão contida da sua nobreza simples. E o altar, ponto a partir do qual o retábulo se eleva, é aqui o chão onde tudo principia e termina.

A mensagem recusa separar o terreno e o divino. A mulher, as flores e as aves combinam-se com uma simbologia cristã que recorda a importância do número sete, da taça e da luz. E, no entanto, recusam fixar-se aí. Pressentimos os quatro elementos. Terra, água, fogo e ar insinuam-se nas brechas, nas escorrências e na sobreposição das camadas de tinta, procurando mostrar como o mundo sublunar, no qual as flutuações da matéria causam devir e morte, é também um lugar de beleza. Os fulgores do amarelo e a suavidade do cinzento inibem a tentação da estridência na representação do luminoso e do tenebroso, para que sobressaia a vida no intervalo dos extremos. Do ponto de vista formal, o mesmo desejo de equilíbrio resulta da disposição dos motivos segundo um princípio ora horizontal ora vertical.

E é assim que o retábulo se acomoda num outro espaço interior. Longe da Igreja, da Bíblia e do Altar, estes RETÁBULOS são recriados num tempo e numa linguagem contemporâneos, constituindo-se agora como vista artística que almeja prolongar a relação contemplativa do observador com o objecto visual. Os vários estudos e desenhos que acompanham as duas peças principais não só se apresentam como representações da representação, um modo de mostrar o labor e os fragmentos do todo, mas também como estímulos à chegada e à permanência do olhar nas linhas, nas formas e nas cores da obra.

De dentro para fora – eis o segundo movimento que progressivamente se instala. Porque se a composição retabular transforma o espaço, sacralizando-o, o olhar que a contempla é tocado pelo princípio estético que consagra a espiritualidade da natureza. E, perante a imagem da beleza no visível, resulta a percepção do belo mesmo que invisível.

 

Leonor Sampaio da Silva

"


facebook instagram Drawing Room Store
FONSECA MACEDO - ARTE CONTEMPORÂNEA | 2017